— Em qualquer lugar. Primeiro: preciso de sua palavra de honra, a honra do
Malcolm hesitou.
— Desde que seja uma história. E ele fez o juramento.
— Obrigado. Vamos à história. Estamos seguros aqui? Alguém pode nos ouvir?
— Na Ásia, quase sempre. Sabemos que as portas têm ouvidos, assim como paredes, mas posso dar um jeito. Chen!
Aporta foi aberta no mesmo instante. Em cantonês, Malcolm ordenou:
— Fique longe da porta, mantenha todos afastados, até mesmo Ah Tok!
— Pois não,
— Agora está seguro, Sr. Gornt. Conheço Chen durante toda a minha vida, e não fala inglês... eu acho. Fala xangainês?
— Um pouco, assim como o dialeto Ning poh.
— Estava dizendo?
— É a primeira vez que conto a história a alguém — afirmou Gornt e Malcolm acreditou. — Era uma vez uma família que foi para a Inglaterra, saindo de Montgomery, Alabama... seu lar por gerações... pai, mãe, dois filhos, um garoto e uma menina. Ela tinha quinze anos, seu nome era Alexandra, e o pai era o mais jovem de cinco irmãos, Wilf Tillman o mais velho.
— O co-fundador da Cooper-Tillman? — indagou Malcolm, surpreso.
— Isso mesmo. O pai de Alexandra era um pequeno corretor de chá e algodão, um investidor com o irmão Wilf na Cooper-Tillman. Foi para Londres trabalhar com a Rothwell, num contrato de três anos, como assessor no algodão... a Cooper-Tillman era a maior fornecedora. Permaneceram em Londres pouco menos de um ano. Infelizmente, os pais adoeceram, o que não é de admirar, com o
— Que coisa terrível! — murmurou Malcolm.
— É verdade. O choque matou seu adorado pai, somando-se à doença. Ele tinha trinta e sete anos. Foi sepultado no mar. O atestado de óbito assinado pelo capitão dizia apenas “convulsão cerebral”, mas tanto ela quanto a mãe sabiam que a verdadeira causa fora a má notícia. Alexandra tinha só dezesseis anos, tão bonita quanto um retrato. Isso foi em 1835, há vinte e sete anos. Alexandra teve um filho, eu. Para uma moça solteira ter um filho ilegítimo, ser uma decaída... ora, Sr. Struan, não preciso lhe dizer que estigma e desastre isso é, ainda mais na região da Bíblia do Alabama, onde vivia a nossa família, e entre os aristocráticos Tillmans. Falamos antes sobre honra. É verdade o que eu disse, que levamos a honra muito a sério, assim como a desonra. Posso?
Gornt gesticulou para a garrafa de champanhe.
— Por favor.
Malcolm não sabia o que dizer. A voz era cadenciada, agradável, imparcial, apenas alguém relatando uma história. Por enquanto, pensou ele, sombrio.
Gornt serviu Struan, depois a si mesmo.
— Minha mãe e a mãe dela foram relegadas ao ostracismo pela sociedade, e também pela família Tillman, até mesmo seu irmão virou-se contra ela. Quando eu tinha três anos, minha mãe conheceu um virginiano, um inglês transplantado... Robert Gornt, um cavalheiro, exportador de tabaco e algodão, um entusiasmado jogador de cartas de Richmond... e os dois se apaixonaram. Deixaram Montgomery, foram casar em Richmond. A história que inventaram foi de que ela era viúva, casada aos dezesseis anos com um oficial de cavalaria ianque, que morrera nas guerras contra os índios
Um gole de champanhe.
— Ele foi responsável pela morte de Wilf Tillman e pela ruína da família Tillman.
— Não sei de nada a respeito. Tem certeza?
Gornt exibiu seu sorriso, sem qualquer hostilidade por trás.
— Tenho, sim. Wilf Tillman caiu doente, com a febre do Happy Valley. Dirk Struan tinha quinino, que poderia curá-lo, mas não quis lhe dar, nem vender, pois queria-o morto; assim Como Jeff Cooper. — Um certo nervosismo insinuou-se na voz— o ianque de Boston queria-o morto.
— Por quê? E por que o
— Ele o odiava... tinha opiniões diferentes de Wilf. Entre outras razões, Wilf tinha escravos, que não eram ilegais na ocasião, e também não são agora, no Alabama. E para ajudar Cooper a assumir o controle da firma. Depois que Wilf morreu, Jeff Cooper comprou sua parte por uma ninharia e cortou minha família do dinheiro restante. Dirk foi o responsável.