— O saquê está como fui informada que gostaria. Frio. Sempre toma saquê frio?
— Sempre. Gosto melhor assim.
Ele se descobrira a gaguejar, seu japonês saindo um tanto ríspido, as mãos pareciam atrapalhar, as palmas suadas. Ela sorrira.
— Esquisito tomar bebidas frias no inverno. Seu coração é frio no inverno e verão?
— Ah, Hinodeh — murmurara André, a pulsação ressoando nos ouvidos e garganta —, acho meu coração como pedra, por muito tempo agora, pensar em você, não saber se quente, frio, ou o quê. Você é linda.
— Só para o seu prazer.
— Raiko-san contar tudo a você sobre eu?
Os olhos de Hinodeh eram serenos, no rosto alvo, as sobrancelhas arrancadas, com meias-luas pintadas no lugar, a testa alta, bico-de-viúva, cabelos pretos, empilhados, presos com travessas de casco de tartaruga, que André logo ansiara em soltar.
— Esqueci o que Raiko-san me contou. O que você me disse antes da assinatura foi aceito e esquecido. Começamos esta noite. É o nosso primeiro encontro. Deve me falar sobre você, tudo o que quiser que eu saiba. — Os olhos dela absorveram um pouco de luz e se contraíram, divertidos. — Haverá bastante tempo, não é?
— Haverá, sim, por favor. Para sempre, eu espero.
Depois que todas as cláusulas do contrato haviam sido acertadas, ao longo dos dias e postas no papel, lidas e relidas, nos termos mais simples, para que ele pudesse entender, André estava pronto para assinar, na presença de Hinodeh e Raiko. Tivera de recorrer a toda a sua coragem:
— Hinodeh, por favor, desculpe, mas a verdade tem de ser dita. A pior.
— Por favor, não há necessidade. Raiko-san me contou.
— Sim, mas, por favor, desculpe...
As palavras saíram hesitantes, embora as tivesse ensaiado uma dúzia de vezes, novas ondas de náusea invadindo-o.
— Devo dizer uma coisa: peguei doença ruim de minha amante, Hana. Sem cura possível, sinto muito. Nenhuma. Você pegar também, se virar minha consorte, sinto muito.
O céu invisível parecera se abrir para ele, enquanto esperava.
— Compreendo e aceito isso, escrevi no contrato que o absolvo de qualquer culpa em relação a nós, entende?
— Ah, culpa, entendo culpa. Obrigado...
Ele tivera de pedir licença, saíra correndo, com uma náusea violenta, mais nauseado que em qualquer outra ocasião anterior de sua vida, mais do que ao descobrir que estava doente ou depois que encontrara Hana morta. Não se desculpara ao voltar, nem uma desculpa era esperada. As mulheres compreendiam.
— Antes de eu assinar,
— Sim..
— Obrigada. Ambas as coisas importantes não precisam ser mencionadas de novo. Concorda, por favor?
— Sim — murmurara ele, abençoando-a.
— Então está tudo resolvido. Pronto, já assinei. Assine também,
No quarto dia, sentado diante dela, no refúgio particular dos dois, André ficara atordoado com sua beleza, os lampiões a óleo brilhantes, mas não em excesso.
— Esta casa agradar você, Hinodeh? — indagara ele, tentando parecer interessado, mas apenas obcecado por tê-la sem adornos.
— É mais importante que lhe agrade,
André sabia que ela apenas fazia aquilo para o que fora treinada, suas respostas ações seriam automáticas, empenhando-se ao máximo para deixá-lo à vontade, independentemente do que sentisse por dentro. Com a maioria dos homens japoneses, ele podia em geral perceber o que pensavam, mas isso quase nunca acontecia com as mulheres... mas também o mesmo ocorre com a maioria das mulheres francesas, pensara ele. As mulheres são muito mais reservadas do que os homens, e também muito mais práticas.
Hinodeh parecia muito serena, sentada ali, imóvel, refletira André. Ela está vulcânica, triste, apavorada... ou com tanto medo e aversão que se tornou entorpecida?
Mãe Santa, perdoe, mas não me importo, não no momento, talvez mais tarde me importe, mas não agora.
Por que ela concordara? Por quê?
Mas isso nunca deve ser perguntado. Jamais. É difícil obedecer a essa cláusula, mas é um tempero adicional, ou a questão que vai me destruir... destruir a nós. Ora, que se dane, tenho de me apressar!
— Gostaria de comer?
— No momento, eu... não sentir fome.
André não conseguia desviar os olhos da moça, nem ocultar seu desejo. O suor escorria pelo corpo.
O sorriso de Hinodeh não se alterara. Um suspiro. Depois, cada movimento lento, os dedos compridos soltaram a
Mal respirando, André a contemplara a se ajoelhar, pegar seu copo, tomar um gole, mais outro, a pulsação em sua cabeça, pescoço e virilha o pressionando ao limite do controle.