Planejara ao longo dos dias ser galante com as palavras, gestos e movimentos, gaulês e japonês, vivido e prático, o melhor amante que ela já tivera, que jamais teria, sem arrependimentos, que a primeira união fosse uma experiência memorável e maravilhosa. Fora memorável, mas não maravilhosa. Sua vontade ruíra. Agarrara Hinodeh, levara-a às pressas para os futons, e ali se mostrara subumano.
Não a via desde aquela noite, nem a Raiko, evitando-as, abstendo-se de visitar a Yoshiwara. Enviara uma mensagem a Hinodeh no dia seguinte, dizendo que a informaria quando tencionava visitá-la de novo. No intervalo, efetuara outro pagamento em ouro a Raiko, seu salário comprometido por dois anos para cobrir o preço do contrato... e mais ainda.
Ontem, mandara avisar que a visitaria esta noite.
Ele hesitou, no limiar da varanda. Telas de shoji fechadas para a noite. Uma luz dourada no interior parecia chamá-lo. Sua pulsação era disparada; como antes, sentia um aperto na garganta. Vozes interiores se manifestavam, com uma linguagem vil contra ele, clamando que fosse embora, que se matasse... qualquer coisa para evitar os olhos de Hinodeh, a repulsiva imagem refletida de si mesmo que havia ali. Deixe-a em paz!
Todo o seu ser queria fugir, e todo o seu ser queria possuí-la outra vez, de qualquer maneira, por todas as maneiras, pior do que antes, qualquer que fosse o custo, odiando a si mesmo, melhor morrer, acabar com tudo, mas primeiro ela. Não posso evitar.
André forçou os pés a saírem dos sapatos, abriu a porta. Ela se encontrava ajoelhada, exatamente como antes, com a mesma roupa, o mesmo sorriso, a mesma beleza, a mesma mão delicada gesticulando para que ele sentasse, a mesma voz gentil.
— O saquê está como fui informada que gostaria. Frio. Sempre toma saquê frio?
Ele ficou boquiaberto. Os olhos que exprimiam tanto ódio, quando se afastara cambaleando na última vez, agora sorriam, com a doce timidez do primeiro momento.
— Como?
E ela repetiu, como se nunca tivesse falado antes, no mesmo tom:
— O saquê está como fui informada que gostaria. Frio. Sempre toma saquê frio?
— Eu... hum... sim.
André mal ouviu suas palavras, com um troar nos ouvidos. Ela sorriu.
— Esquisito tomar bebidas frias no inverno. Seu coração é frio no inverno e no verão?
Como um papagaio, ele balbuciou as respostas corretas, não encontrando qualquer dificuldade para recordar cada palavra e acontecimento, gravados de forma indelével; e embora sua voz fosse trêmula, Hinodeh parecia não ouvir, apenas se comportava como antes, os olhos serenos.
Nada mudara.
— Gostaria de comer?
— No momento, eu... não sentir fome.
O sorriso de Hinodeh não foi diferente. Nem o suspiro. Ela se levantou. Mas agora apagou os lampiões a óleo, foi para o quarto, apagou também os que haviam ali.
Quando seus olhos ajustaram-se à escuridão, André constatou que havia apenas uma claridade mínima do lampião na varanda, passando pelas telas de shoji, mal dava para divisar os contornos de Hinodeh. Ela estava se despindo. Momentos depois, o som das cobertas sendo puxadas.
André se levantou com algum esforço, foi para o quarto, sabendo que ela tentava salvar as aparências, enquanto ele queria apagar o que nunca poderia ser apagado.
— Da minha mente, nunca — sussurrou ele, dominado pela angústia, o rosto molhado pelas lágrimas. — Não sei sobre você, Hinodeh, mas eu jamais esqueci. Sinto muito, mas muito mesmo.
—
André demorou um pouco para se ajustar ao uso do japonês, e depois balbuciou:
— Hinodeh, eu dizer... apenas agradecer, Hinodeh. Por favor, desculpe, sinto muito...
— Mas não há nada para desculpar. Esta noite começamos. É o nosso princípio.
36
Quarta-feira, 3 de dezembro:
Hiraga percebeu seu reflexo de passagem na janela do açougue e não se reconheceu. Os transeuntes na High Street mal o notavam. Ele voltou, contemplou a imagem meio difusa... seu novo disfarce. Cartola, colarinho alto e gravata, uma sobrecasaca de ombros largos e apertada na cintura, de casimira escura, colete de seda azul, atravessado por uma corrente de aço inoxidável, ligada ao relógio de algibeira, calça justa, botinas de couro. Tudo presente do governo de sua majestade, exceto o relógio, dado por Tyrer... pelos serviços prestados. Hiraga tirou a cartola, tornou a se contemplar, de um lado e de outro. Agora os cabelos cobriam toda a cabeça, crescendo depressa, ainda não tão compridos quanto os de Phillip Tyrer, mas sem dúvida bastante longos para serem considerados europeus. Rosto raspado. A qualidade e o baixo custo das lâminas britânicas haviam-no impressionado bastante, outro exemplo espetacular das proezas industriais.