— Neste caso... — murmurou o shoya, registrando a grande concessão do “por favor”, com um vestígio de humildade na voz. — Qualquer serviço para você e sua família, clientes valiosos, é uma honra para a Gyokoyama.
— Obrigado.
Hiraga terminou seu saquê. Sumomo estivera em Quioto com Katsumata. Onde ela se encontra agora? Por que não foi para Shimonoseki, como ordenei? 0 que fazia em Quioto? E onde está agora?
Em retribuição, e com algum esforço ele pôs essas e outras indagações de lado, para análise posterior, e tratou de se concentrar. Tirou do bolso um maço de anotações e começou a explicar, repetindo em parte o que “Taira” e “Mukfey’ haviam lhe dito, ao longo de horas. O shoya escutou com uma total atenção, grato porque a esposa os ouvia escondida e anotava tudo.
Quando Hiraga discorreu sobre empréstimos, financiamentos e atividades bancárias — não dava para entender a maior parte do que ele disse —, o shoya-impressionado com sua memória e percepção de coisas que lhe eram completamente estranhas, não pôde deixar de comentar:
— Extraordinário, Otami-sama.
— Outra questão importante. — Hiraga respirou fundo. — Mukfey disse que os gai-jin têm uma espécie de mercado, shoya, um stoku markit, onde as únicas mercadorias negociadas, compradas e vendidas, são pequenos pedaços de papel impressos, chamados stoku ou sheru, que de alguma forma representam dinheiro, grandes quantidades de dinheiro, cada stoku sendo parte de uma kompeni.
Ele tomou um pouco de chá. Constatando a falta de compreensão do shoya, respirou fundo outra vez.
— Digamos que o daimio Ogama deu toda Choshu, toda a terra e produto da terra a uma kompeni, a Choshu Kompeni, e determinou que a kompeni fosse dividida em dez mil partes iguais, dez mil sheru, entende?
— Eu... acho que sim. Por favor, continue.
— Assim, a stoku da Choshu Kompeni é dez mil sheru. Em seguida, o daimio, por conta da kompeni, oferece todas ou parte das sheru para alguém com dinheiro. Em troca de seu dinheiro, o homem ou mulher recebe esse pedaço de papel dizendo quantas sheru da Choshu Kompeni ele comprou. A pessoa possui assim essa parte da kompeni e, com isso, a mesma proporção de sua riqueza. O dinheiro que ele e outros pagam para a kompeni se torna então o kaipital, acho que foi isso que Mukfey disse, o dinheiro que eles precisavam para dirigir e melhorar a riqueza da kompeni, para pagar estipêndios, reivindicar terras, comprar armas, sementes, melhorar barcos de pesca, para pagar qualquer coisa que seja necessária para aumentar e fazer Choshu prosperar, para tornar mais alto o valor da kompeni.
Hiraga fez uma pausa.
— Mufkey explicou que... Ele disse que em qualquer mercado, shoya, os preços mudam, em tempos de fome até todos os dias, não é mesmo? É o que também acontece todos os dias nesse stoku markit, com centenas de diferentes kompeni, compradores e vendedores. Se a colheita de Choshu é enorme, o valor de cada parte da Choshu Kompeni será alto, se for pequena, fica baixo. O valor de cada sheru também varia. Está entendendo?
— Acho que sim — murmurou o shoya, compreendendo tudo muito bem, discretamente entusiasmado, cheio de idéias e perguntas.
— Ótimo.
Hiraga sentia-se cansado, mas fascinado por aquelas novas idéias, embora às vezes se perdesse em seu labirinto. Nunca barganhara num mercado, ou numa estalagem, apenas pagava o que lhe pediam, quando pediam, nunca em toda a sua vida protestara contra o custo de qualquer coisa ou pelo valor de uma conta... exceto desde que se tornara ronin. As contas eram sempre enviadas para quem recebia seu estipêndio, se você era um samurai. Se solteiro, normalmente para sua mãe. Comprar e cuidar do dinheiro era trabalho de mulher, nunca de homem.
Você comia o que ela — mãe, tia, avó, irmã ou esposa — comprava com seu estipêndio, vestia ou se armava da mesma maneira. Sem estipêndio, passava fome, você e sua família, ou se tornava ronin, ou tinha de renunciar voluntariamente à condição de samurai e se tornar camponês, um trabalhador, senão pior ainda, um mercador.
— Shoya — disse ele, franzindo o rosto —, os preços variam num mercado de comida ou peixe. Mas quem decide o preço?
A guilda de pescadores ou camponeses, o shoya poderia responder, ou mais provavelmente os mercadores, que possuíam de fato a produção, tendo emprestado o dinheiro para comprar as redes ou sementes. Mas ele era cauteloso demais, e a maior parte de sua energia se concentrava em tentar se manter impassível, diante de tantas informações de valor inestimável, mesmo que incompletas.
— Se há muitos peixes, são mais baratos do que na ocasião em que há poucos. Depende da pescaria ou da colheita.