— Como se eu pudesse esquecer! Mas Anjo... não que eu tenha qualquer influência para conseguir uma coisa assim... é um tolo. Como tairo, ele se tornará ainda mais arrogante.
— É verdade, mas elevá-lo acima dos outros anciãos pode ser um pequeno preço a pagar para fazer com que seu lorde xógum fique mais seguro durante sua minoridade e frustrar seu... seu único rival, lorde Yoshi.
— Um tairo poderia removê-lo de sua posição de guardião?
— Provavelmente, princesa. Outro ponto em favor de Anjo, sussurram os sábios, é o fato de ele ser o instrumento perfeito a se usar contra os gai-jin: simplório, mas obediente às solicitações imperiais. O divino notaria tal lealdade, e sem dúvida recompensaria os serviços prestados. Se for feito depressa, de maneira discreta, pelo que dizem os sábios, seria o melhor.
Fora muito fácil plantar a semente que desabrocharia como uma de minhas orquídeas de estufas superfertilizadas... como fui previdente ao manobrar para o casamento dela. As palavras da princesa nos ouvidos daquele jovem obtuso, a cooperação de alguns nobres dependentes, meus próprios conselhos, logo procurados e prontamente oferecidos, e tudo ficou resolvido.
E agora é a sua vez, Toranaga Yoshi, pensou ele, feliz, Yoshi, o belo, o astuto, forte, o usurpador bem-nascido, esperando e farejando nas asas do poder, pronto para iniciar a guerra civil que eu e todos tememos, à exceção de uns poucos nobres radicais, a guerra que vai esmagar a ressurgência do poder imperial, e mais uma vez deixar a corte imperial sob o tacão de qualquer belipotentado salteador que dominar os portões e poderá, com isso, reduzir nossos estipêndios e nos transformar de novo em mendigos.
Ele conteve um tremor. Há não muitas gerações, o imperador de então tinha de vender sua assinatura nas ruas de Quioto, a fim de levantar dinheiro para comer. Há não muitas gerações, os casamentos na corte eram arrumados para daimios ambiciosos e arrivistas, que mal pertenciam à classe dos samurais, tendo como uma única qualificação para uma posição superior o sucesso na guerra e o dinheiro. Há não muitos anos...
Não, pensou ele, nada disso vai acontecer. Depois que
Wakura tossiu, ajeitou as mangas enormes do requintado traje da corte mais a seu gosto, observando Yoshi, os olhos contraídos no rosto maquilado, de acordo com o costume da corte.
— Sem dúvida, Sire, a ordem para expulsar os
— Se a ordem fosse significativa, sim. Se fosse obedecida, sim. Se tivéssemos os meios para impô-la, sim. Mas nada disso vai acontecer. Por que não fui consultado?
— Você, Sire?
As sobrancelhas pintadas de Wakura se altearam.
— Sou o guardião do herdeiro por designação imperial. O menino é menor de idade, não é responsável por sua assinatura.
— Oh, Sire, sinto muito... se dependesse de mim, é claro que sua aprovação seria procurada em primeiro lugar. Por favor, não me culpe, Sire. Não posso decidir nada, apenas fazer sugestões. Sou apenas um servidor da corte, do imperador.
— Eu deveria ter sido consultado!
— Concordo, Sire, mas estes são tempos estranhos.
O rosto de Yoshi era tenso. Os danos já haviam se consumado. Ele teria de arrancar o xogunato de seu próprio esterco. Idiotas! Como?
Primeiro Anjo... de um jeito ou de outro. Minha esposa tinha razão.
Ah, Hosaki, como sinto falta dos seus conselhos! Pensando na família, seus olhos vaguearam para fora e no mesmo instante a fúria pareceu se dissolver. Além da janela de shoji, avistou seus guardas, esperando ao abrigo do telhado requintado, os jardins por trás, a chuva indulgente, faiscando nos vermelhos, dourados e marrons combinados com o maior cuidado, uma imagem agradável para a vista e a alma... tão diferente de Iedo, pensou ele, distraído. Hosaki gostaria daqui grande mudança em nossa vida austera. Ela aprecia a beleza e gostaria daqui.
Seria muito fácil se deixar embalar, pelo tempo e os jardins, os céus gentis e a chuva delicada, a melhor música, poesia, alimentos exóticos, beldades de pele de alabastro da corte e também do mundo flutuante de Quioto, Shimibara, o mais procurado em todo o Nipão, sem qualquer preocupação no mundo, exceto a de procurar o próximo prazer.
Desde que chegara a Quioto, além da paz temporária com Ogama, pouco realizara, além dos tempos de prazer... tão raros para ele. O prazer com Koiko, o treinamento diário com espada e artes marciais, massagens maravilhosas —Quioto era famosa por isso — banquetes em cada refeição, jogar Go e xadrez escrever poesia.