— Tentarei, padre. Adeus. Obrigada... tentarei.

Ela contornou-o, afastou-se apressada. Virou-se ao chegar à porta, por um momento, fez uma genuflexão e saiu para a luz. O padre continuou parado na nave de costas para o altar, sua voz ressoando pela igreja:

— Seja um instrumento de Deus, converta os pagãos, se ama a Deus, salve esse homem, salve-o do purgatório, se ama a Deus, salve-o, ajude-me a salvá-lo das chamas do inferno, salve-o para a glória de Deus, tem de fazer isso... antes de casar, salve-o, deixe-nos salvá-lo...

Naquela noite, uma patrulha de samurais saiu da casa da guarda no portão norte. Eram dez guerreiros, armados com espadas e uma armadura leve de combate, um oficial no comando. Atravessaram a ponte, passaram pela barreira, entraram na colônia. Um homem carregava um estandarte alto e estreito, com caracteres escritos. O samurai na vanguarda erguia uma tocha, que projetava estranhas sombras.

A High Street e o passeio a beira-mar ainda se encontravam bastante movimentados, no princípio de noite agradável. Mercadores, soldados, marujos, lojistas dando uma volta, ou parados em grupos, conversando e rindo, aqui e ali, com umas poucas canções e bêbados, um ou outro cautelosos prostitutos. Na praia, alguns marujos haviam acendido uma fogueira e dançavam uma hornpipe ao redor, embriagados, com um travesti no meio. Podia-se ouvir a distância o clamor habitual na cidade dos bêbados.

A presença ominosa foi logo notada. Todos pararam no mesmo instante. As conversas foram interrompidas no meio de uma frase. E depois cessaram por completo. Todos os olhos se viraram para o norte. Os mais próximos da patrulha trataram de sair da frente. Mais que uns poucos tatearam à procura do revólver e praguejaram por não encontrá-lo no bolso ou no coldre. Outros recuaram e um soldado de folga saiu correndo por uma viela para chamar o plantão noturno dos fuzileiros.

— Qual é o problema, senhor? — perguntou Gornt.

— Ainda nenhum — respondeu Norbert, com uma expressão sombria.

Os dois integravam um grupo no passeio, mas ainda longe dos samurais, que não prestaram qualquer atenção aos homens silenciosos que os observavam, caminhando encurvados, os passos irregulares, como era seu costume. Lunkchurch aproximou-se.

— Está armado, Norbert?

— Não. E você?

— Também não.

— Eu estou, senhor. — Gornt sacou sua pequena pistola. — Mas não fará muita diferença, se eles forem hostis.

— Quando em dúvida, meu jovem — disse Lunkchurch, a voz rouca —, saia correndo, é o que sempre falei.

Ele estendeu a mão para Gornt, antes de se afastar, apressado:

— Barnaby Lunkchurch, Sr. Gornt. Prazer em conhecê-lo. Seja bem-vindo a Yokopoko. Até mais tarde, no clube. Ouvi dizer que joga bridge. Será ótimo sentarmos para uma partida.

Todos trataram de se manter fora do alcance. Os bêbados se tornaram subitamente sóbrios. Cada um se encontrava de guarda, pois era muito bem conhecida a rapidez de uma repentina corrida de samurai brandindo as espadas. Norbert já escolhera uma linha de retirada, caso se tornasse necessário. Depois ele viu o pelotão de fuzileiros sair por uma rua transversal, em passo acelerado, os fuzis de prontidão, um sargento à frente, para assumir uma posição de vigia embora não provocadora. Norbert relaxou e comentou:

— Não há mais nada com que se preocupar agora. Sempre anda com isso Edward?

— Sempre, senhor. Pensei que tinha lhe dito.

— Não, não disse — respondeu Norbert, em tom ríspido. — Posso vê-la?

— Claro. Está carregada.

A pistola era pequena, mas mortífera. Cano duplo. Dois cartuchos de bronze. Coronha revestida de prata. Norbert devolveu-a.

— Muito boa. É americana?

— Francesa. Meu pai me deu quando fui para a Inglaterra. Disse que a ganhara de um jogador num barco no Mississippi, a única coisa que me deu em toda a sua vida. — Gornt riu baixinho, os dois observando os samurais se aproximarem. — Até durmo com ela, senhor, mas só a disparei uma vez. Foi contra uma dama que se esgueirava com minha carteira na calada da noite.

— Acertou-a?

— Não, senhor. Nem estava tentando. Queria apenas assustá-la. Uma dama não deve roubar, não é mesmo, senhor?

Norbert soltou um grunhido e voltou a se fixar nos samurais, considerando Gornt sob uma nova luz, mais perigosa.

A patrulha foi andando pelo meio da rua, as sentinelas na frente das legações britânica, francesa e russa — as únicas com guardas permanentes — aprontando seus fuzis, já alertadas.

— Soltar as travas de segurança! Não atirem, até eu mandar! — resmungou o sargento. — Grimes, vá avisar ao comandante. Ele está com os russos, a terceira casa descendo a rua.

O soldado se afastou. Os lampiões ao longo do passeio piscavam. Todos esperavam, ansiosos. O oficial dos samurais continuou a avançar, impassível.

— Um desgraçado de maus bofes, não acha, sargento? — sussurrou um soldado, as mãos empunhando o fuzil.

— Todos são desgraçados de maus bofes. Trate de se controlar.

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