Ao meio-dia, o vigia shishi postado diante do quartel-general de Toranaga observou quarenta samurais e porta-estandartes saírem e descerem pela rua, em direção ao portão leste do palácio. Era a troca de guarda rotineira do meio-dia. A maioria levava lanças, todos tinham duas espadas, mantos de chuva, e os chapéus de palha grandes e cônicos.

O shishi bocejou, ajeitou seu próprio manto nos ombros, quando uma chuva leve começou a cair, deslocou seu banco para baixo do toldo da barraca que vendia talharim, sopa e chá e pertencia a um simpatizante. Ele se encontrava de serviço desde o amanhecer. Tinha dezoito anos, uma barba cerrada. Um ronin de Satsuma.

Antes de deixar Quioto, o líder, Katsumata, ordenara uma vigilância rigorosa aos quartéis-generais de Toranaga e Ogama.

— No momento em que houver uma chance de atacar qualquer um dos dois, terá de ser fora de seus muros e com possibilidade concreta de sucesso... será desfechada uma investida de um só homem. Um único homem, não mais do que isso. Os shishi devem ser resguardados, mas também temos de estar preparados, Um ataque de surpresa é a nossa única oportunidade de vingança.

No portão, vários carregadores com cestos de legumes e peixes frescos pararam na barreira. Guardas atentos os inspecionaram, cada um com igual cuidado, e depois gesticularam para que passassem.

O jovem tornou a bocejar. Não havia a menor possibilidade de passar pelas barreiras. Ele especulou por um momento se a moça Sumomo conseguira entrar e se instalar lá dentro, como Katsumata concordara. Fora um milagre aqueles três escaparem pelo túnel. Um autêntico milagre. Mas onde eles estão agora? Não se tivera mais notícias de qualquer um desde a fuga milagrosa. Mas que importância isso tem? Devem estar seguros, como nós... Contamos com protetores importantes. Vamos nos reagrupar mais tarde. Teremos a nossa vingança. Sonno-joi vai acontecer.

Ele observou os guardas virarem a esquina e sumirem de sua vista. Sentia-se cansado agora, mas o pensamento de futons quentes e de sua amante à espera dissipou a maior parte da exaustão.

A patrulha do xogunato chegou ao portão leste. Havia uma casa de guarda encostada nos muros, estendendo-se pelos dois lados do portão, capaz de abrigar quinhentos homens e cavalos, se fosse necessário. O portão tinha seis metros de altura, a madeira reforçada por ferro, com um portão muito menor ao lado, que permanecia aberto. Os muros do perímetro eram mais altos, antigos, de pedra.

Por um instante, os novos guardas se misturaram ruidosamente aos antigos, todos bem agasalhados. Oficiais inspecionaram homens e armas, a guarda de saída começou a entrar em formação. Um oficial e um ashigaru, um infante, do grupo substituto, atravessaram a rua. A chuva parou. O sol irrompeu entre as nuvens. Os dois homens seguiram por outra rua e entraram em outro quartel, igual a muitos que havia em Quioto. Ali se encontravam alojados duzentos samurais de Ogama a alguma distância do portão, mas bastante perto.

— Quarenta homens, aqui estão seus nomes — disse o oficial a seu equivalente, fazendo uma reverência. — Nada de novo a informar.

— Ótimo. Os dois venham comigo, por favor.

O oficial de Ogama estudou a lista de nomes, enquanto os conduzia através a seus homens. Entraram numa sala vazia, com uma porta fechada no outro lado. O oficial bateu, abriu-a em seguida. Na outra sala só havia tatames e uma mesa baixa. Ogama estava de pé na janela, armado, cauteloso, mas sozinho. Os dois oficiais deram passos para os lados e se curvaram.

O ashigaru tirou o chapéu grande e se revelou como Yoshi. Em silêncio, ele entregou a espada longa a seu oficial, mantendo a curta, e entrou na sala. A porta foi fechada. Os dois oficiais deixaram escapar um suspiro. Estavam suados. Dentro da sala, Yoshi fez uma reverência.

— Obrigado por concordar com este encontro.

Ogama retribuiu a reverência, gesticulou para que Yoshi sentasse na sua frente.

— O que é tão urgente e por que tamanho sigilo?

— Más notícias. Você disse que aliados devem partilhar informações confidenciais. Sinto muito, mas Nori Anjo foi designado tairo.

A notícia deixou Ogama visivelmente abalado, e ele escutou com a maior atenção, enquanto Yoshi falava. Quando Yoshi falou sobre o convite imperial, um pouco de sua ira se dissipou.

— Ah, quanta honra e reconhecimento, no momento devido!

— Foi o que também pensei. Até sair do palácio. Só então percebi a profundidade da armadilha.

— Que armadilha?

— Ter os lordes de Satsuma, Tosa, você e eu, todos no mesmo lugar, ao mesmo tempo? Em trajes cerimoniais? Dentro dos muros do palácio? Sem armas nem guardas?

— O que Wakura poderia fazer? Ou qualquer dos outros? Eles não têm samurais... nem exércitos, nem dinheiro, nem armas. Absolutamente nada!

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