— É verdade, mas pense um pouco: quando nós quatro estivermos diante do filho do céu, juntos, seria o momento certo para alguém... Wakura, príncipe Fujitaka, o xógum Nobusada, ou a princesa... sugerir que, “como um presente para o divino, agora é o momento para os quatro maiores daimios da terra expressarem sua lealdade, oferecendo seus poderes a ele”.

A expressão de Ogama tornou-se sombria.

Nenhum de nós concordaria. Iríamos tergiversar, ganhar tempo, até mesmo mentir...

— Mentir? Para o filho do céu? Nunca. Escute mais: digamos que o príncipe conselheiro, antes da cerimônia, em particular, sugerisse o seguinte: “Lorde Ogama, o filho do céu deseja adotá-lo, torná-lo príncipe Ogama, capitão da guarda Imperial, lorde comandante dos portões, membro do Novo Conselho Imperial dos Dez, que governará no lugar do xogunato Toranaga usurpador. Em troca...

— Que Conselho de Dez?

— Espere... “em troca precisa apenas reconhecê-lo por quem ele é: o filho do céu, imperador do Nipão, possuidor das insígnias sagradas... orbe, espelho e cetro... descendente dos deuses e com ascendência sobre todos os homens; em troca, você dedica seu feudo e samurais a serviço dele e cumprirá seus desejos que serão exercidos através da Corte Imperial dos Dez!

Ogama fitava-o aturdido, gotas de suor no lábio superior.

— Eu... eu nunca renunciaria a Choshu!

— Talvez sim, talvez não. Talvez o porta-voz imperial diga também que o imperador o confirmará em seu feudo, como lorde de Choshu, conquistador dos gai-jin, guardião dos estreitos, sujeito apenas a ele, e ao Conselho Imperial dos Dez.

— Quem mais integra o conselho? — perguntou Ogama, a voz rouca.

Yoshi removeu o suor da testa. Todo o plano aflorara de repente, quando chegara a seu quartel. O general Akeda precipitara a conclusão com um comentário casual sobre como era insidioso o pensamento em Quioto, o que parecia impregnar o próprio ar que respiravam, que qualquer coisa considerada um prêmio num instante podia se tornar uma cilada no momento seguinte.

Sentira-se até fisicamente doente, sabendo que se poderia deixar seduzir com a mesma facilidade de qualquer outro... hoje mesmo, pouco antes, deixara-se embair para um falso senso de segurança, até compreender que ficaria isolado.

— Aí está, Ogama-sama, já se sente tentado. Quem mais está no conselho? Como se tivesse alguma importância o que lhe dissessem. Seria um contra os indicados deles. Lorde Sanjiro também. O lorde camarista Wakura e sua laia dominariam.

— Não concordaríamos. Eu não...

— Sinto muito, mas você concordaria... eles podem oferecer honrarias para tentar um kami... a maior tentação sendo a de que pretenderiam substituir o xogunato Toranaga pelo xogunato do Conselho dos Dez! Claro que não me seria oferecido um lugar no Conselho de Dez, nem a qualquer outro Toranaga, à exceção de Nobusada, que já é controlado por eles, por causa daquela princesa, como adverti. — A raiva de Yoshi era intensa. — Anjo é o primeiro passo.

Quanto mais os dois homens consideravam os desdobramentos, mais podiam perceber as incontáveis armadilhas pela frente. Ogama disse, a voz rouca:

— As festividades se prolongariam por semanas ou mais... seríamos obrigados a oferecer banquetes à corte, e uns aos outros. Venenos lentos poderiam ser introduzidos.

Yoshi estremeceu. Durante toda a sua vida, sentira um medo profundo de ser envenenado. Um tio predileto morrera em grande agonia, o médico dizendo “causas naturais”, mas o tio era uma farpa incômoda no flanco de um Bakufu hostil e sua morte fora bastante conveniente. Talvez o envenenamento, talvez não. A morte do xógum anterior, no ano em que Perry voltara, um dia saudável, no outro morto, também muito conveniente para o tairo Li, que o odiava e queria um títere — Nobusada — em seu lugar.

Rumores, jamais comprovados, mas o veneno era uma arte antiga no Nipão, assim como na China. Quanto mais Yoshi argumentava consigo mesmo — se a morte por envenenamento fosse seu karma —, mais cuidava para que seus mais cuidava que seus cozinheiros fossem de confiança, e se mostrava cauteloso com tudo o que comia, mas isso não eliminava o pânico que o dominava de vez em quando.

Abruptamente, Ogama cerrou o punho e bateu forte na palma da outra mão.

— Anjo tairo! Não posso acreditar!

— Nem eu.

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