Ao enviar o mensageiro para marcar aquele encontro secreto, Yoshi pensara como era irônico que agora ele e Ogama tivessem de fato de trabalhar juntos, se quisessem sobreviver. Não poderiam mais sobreviver isolados. Pelo menos no momento.
— Como podemos impedir que isso aconteça? Posso perceber que eles seriam capazes de me tentar.
Ogama cuspiu no tatame em aversão.
— Eles podem tentar qualquer um, Ogama-domo.
— São como kamis-lobos, isso eu posso entender. Estamos acuados. Se o divino nos convidar, seus sequazes insidiosos vão nos destruir. Vamos reunir as pessoas de quem você falou ou... Mandarei chamar Basushiro, pois sua mente é como a de uma serpente!
— Só estaremos acuados se aceitarmos o convite amanhã. Proponho que ambos deixemos Quioto esta noite, em segredo. Se não estivermos aqui... O que acha da idéia?
O sorriso súbito de Ogama era extasiado, mas se dissipou no instante seguinte. Yoshi percebeu o motivo e acrescentou:
— Uma manobra assim exige uma grande confiança entre nós.
— Tem razão. O que você propõe como precaução contra quaisquer erros?
— Não posso cobrir todas as alternativas, mas isso é temporário: ambos deixaremos Quioto esta noite, concordando em permanecer fora pelo menos por vinte dias. Seguirei imediatamente para Iedo e cuidarei de Anjo, tentando neutralizá-lo, e lá permanecerei até que isso seja consumado. O general Akeda ficará no comando aqui, como sempre, e dirá que tive de voltar de repente para o Dente do Dragão, uma doença na família, mas logo voltarei. Você vai para Fushimi, passa a noite ali. Amanhã, ao pôr-do-sol, depois que o convite deixou de alcançá-lo... porque ninguém, nem mesmo Basushiro, sabe onde se encontra, hem?
— É muito perigoso não contar a ele, mas continue.
— Deixo isso ao seu critério. Mas amanhã, ao pôr-do-sol, você manda entregar uma mensagem ao príncipe Fujitaka, convidando-o para um encontro Particular na manhã seguinte, talvez nas ruínas de Monoyama... — Era um dos lugares prediletos para excursões dos habitantes de Quioto. — Quando se encontrar com ele, manifeste seu espanto pelo “convite” e lamente não estar presente para aceitá-lo. Enquanto isso, é melhor ele garantir que não haverá outros convites até seu retorno. “E quando pretende voltar?” Você não tem certeza. Os
Ogama soltou um grunhido. Baixou os olhos para o tatame, perdido em seus pensamentos. Só depois de algum tempo é que falou:
— O que me diz de Sanjiro e de Yodo de Tosa? Eles virão, com uma força militar cerimonial, mas ainda assim com uma força.
— Diga a Fujitaka para providenciar o adiamento de seus convites... ele deve sugerir ao divino que este solstício está carregado de maus presságios.
— Uma boa sugestão. Mas o que fazer se eles não adiarem?
— Fujitaka dará um jeito.
— Se é tão fácil, por que não ficar, até mesmo com os convites? Basta eu dizer a Fujitaka para fazer a sugestão sobre os maus presságios. O festival é cancelado, não é mesmo? Isso pressupõe que Fujitaka tem o poder de sugerir ou dessugerir.
— Com Wakura, ele pode fazer isso. Creio que a insídia em Quioto impregna o ar que respiramos... cairíamos numa cilada.
Era o melhor que ele podia fazer. Não convinha a seus propósitos que Ogama ficasse sozinho em Quioto e ainda havia o problema dos portões a resolver.
— Eu poderia passar vinte dias em Fushimi ou Osaca — murmurou Ogama.
— Não poderia voltar a Choshu, pois isso deixaria minha posição em Quioto... ficaria exposto a um ataque.
— De quem? Não meu... somos aliados. Hiro não estará aqui, nem Sanjiro. Pode ir até Choshu, se assim desejar. Pode confiar em Basushiro para manter sua posição aqui.
— Não se pode confiar tanto assim num vassalo — declarou Ogama, irritado.
— O que me diz dos
— Basushiro e o meu Akeda continuarão a esmagá-los... nossos espiões do
Ogama franziu o rosto.
— Quanto mais penso a respeito, menos me agrada. Há perigos demais, Yoshi-dono. Fujitaka vai me dizer, com toda certeza, que seu convite também não foi entregue.
— Vai ficar surpreso. Sugiro que diga que minha desculpa sobre uma doença na família deve ser uma cobertura e que é mais provável que eu esteja correndo para Iedo, a fim de ver o que posso fazer para impedir que os
— Então vamos obrigá-los a partir.
— No momento oportuno, Ogama-dono. — O rosto de Yoshi se tornou ainda mais duro. — Tudo o que eu previ aconteceu. Acredite em mim, não conseguiremos forçar os
— Então quando?