— Estou bêbado, Rushan? Um sargento fazendo uma reverência para um infante? Um sargento?

— Eu também vi, Izuru — sussurrou o outro. — Olhe para o soldado. Pode vê-lo agora, o mais alto, quase no final da coluna, veja como ele segura a lança. Não está acostumado a isso.

— Certo, mas... O que há com ele?

— Repare como os outros o observam, furtivamente!

Com crescente excitamento, eles ficaram observando o soldado, enquanto a coluna se aproximava. Embora as armas, o uniforme e todo o resto fossem iguais, havia uma grande diferença inequívoca: no porte, no passo, nas qualidades físicas do homem, por mais que ele tentasse se encolher.

— Lorde Yoshi! — murmuraram os dois ao mesmo tempo.

Rushan acrescentou, no instante seguinte:

— Ele é meu.

— Não, meu — protestou Izuru.

— Eu o vi primeiro! — insistiu Rushan, decidido, tão impaciente que mal conseguia falar.

— Nós dois, juntos, teremos uma chance maior.

— Não. Fale baixo. Um homem de cada vez, foi essa a ordem de Katsumata, e concordamos. Ele é meu. Dê o sinal no momento oportuno.

O coração disparado, Rushan esgueirou-se entre os fregueses e pedestres, a fim de assumir uma melhor posição de ataque.

A nova posição de Rushan era à beira da rua. Um último olhar para situar sua presa. Depois, ele sentou no banco, de costas para a coluna, os olhos no amigo Izuru, absolutamente em paz. Seu poema de morte para os pais estava nas mãos do shoya da aldeia, entregue anos antes, quando ele e dez outros estudantes samurais haviam se rebelado. Eram todos goshi e lhes fora negado o ingresso na escola para instrução superior, porque os pais não tinham recursos para pagar os subornos necessários às autoridades locais. Mataram as autoridades, declararam-se ronin, a favor de sonno-joi, e fugiram.

Dos dez, apenas ele continuava vivo. Muito em breve morreria, pensou, exultante, sabendo que se encontrava preparado, treinado, no auge de sua força, e que Izuru seria sua testemunha.

Izuru tinha o mesmo fervor. Já determinara seu próprio plano de ataque, se Rushan falhasse. Confiante, ele se deslocou para uma posição melhor. Seu olhar desviou-se da patrulha, foi se fixar no portão. Os guardas ali se preparavam para o ritual de inspecionar os outros de volta, na passagem pela barricada. Percebeu no mesmo instante que a atividade era maior, com mais ordens gritadas do que o habitual, os homens mais alertas, mais nervosos.

Ele praguejou para si mesmo. Os homens sabem! Claro que sabem, e sabem desde que a coluna partiu! Isso explica por que se mostraram tão irrequietos e irritados durante toda a manhã. Todos sabiam que lorde Yoshi se encontrava lá fora disfarçado. Mas por quê? E onde ele esteve? Ogama! Mas por quê? Planejaram outra emboscada contra nós? Fomos traídos de novo?

Seus olhos se deslocavam de um lado para outro, jamais esquecendo Rushan, avaliando as distâncias e os tempos. Já havia muitas pessoas nas proximidades fazendo a reverência. A qualquer momento o comandante da coluna a faria parar, o oficial no Portão se adiantaria para recebê-lo, ambos fariam uma reverência, juntos inspecionariam os homens que voltavam, que depois seguiriam em frente. O oficial ergueu a mão. A coluna parou. “Agora!”, Izuru quase disse em voz alta, enquanto gesticulava. Rushan viu o sinal e correu para a retaguarda da coluna de vinte metros, a espada comprida empunhada pelas duas mãos.

Ele passou pelos dois primeiros homens, derrubando-os, antes que os samurais sequer compreendessem que estavam sendo atacados, e desferiu um golpe contra Yoshi, que o fitou aturdido por uma fração de segundo. Só o aguçado instinto de Yoshi o levou a arremeter na direção do golpe fatídico, desviando-o para um soldado estupefato ao seu lado, que soltou um grito e caiu.

Gritando “sonno-joi!”, na súbita confusão ao seu redor, Rushan puxou a lâmina, enquanto os outros soldados tentavam abrir espaço, empurrando-se uns aos outros, mais guardas correndo do portão, espectadores por toda parte boquiabertos e paralisados. Wataki, o informante shishi, estava tão surpreso quanto qualquer dos soldados, e apavorado com a perspectiva de ser envolvido ou traído por aquele shishi, que parecia ter surgido do nada.

Wataki viu Rushan golpear de novo, e prendeu a respiração. Mas Yoshi recuperara o equilíbrio, embora ainda não tivesse tido tempo de desembainhar a espada, e por isso usou a haste da lança contra o golpe. A espada de Rushan cortou-a com a maior facilidade, mas a lâmina se desviou, perdeu o impulso, proporcionando a Yoshi apenas o tempo suficiente para se adiantar e segurar o cabo da espada na mão esquerda.

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