Ele a abordara durante sua visita à mama-san de Quioto, que por instigação de Meikin, sua própria mama-san em Iedo, providenciara criadas, cabeleireira, massagistas, durante sua permanência na cidade. Só Teko e uma criada vieram com ela de Iedo.

— Peço um favor por uma vida inteira — dissera Katsumata.

— Não deve! — protestara ela, chocada ao vê-lo, chocada por saber que ele a deixaria em perigo por aquele encontro clandestino, e chocada por Katsumata lhe pedir um favor que teria, sem dúvida, terríveis conseqüências. Uma vez concedido, nenhum outro favor jamais poderia ser pedido à mesma pessoa, pois a dívida inerente seria enorme. — Concordamos, quando lorde Toranaga Yoshi me acolheu, que todos os contatos pessoais entre nós deveriam cessar, exceto numa emergência.

— É por isso que lhe peço o favor de uma vida inteira.

Sete anos atrás, em Iedo, quando ela tinha quinze anos, Katsumata fora seu primeiro cliente. Logo se tomara muito mais: amigo, guru e mestre extraordinário. Abrira seus olhos para o mundo, para a importância do mundo real, assim com o mundo flutuante. Ao longo dos anos, Katsumata lhe ensinara a cerimônia do chá, a arte do debate, caligrafia, sobre poesia e os significados profusos da literatura política, relatara suas idéias e planos para o futuro, como aquele seu pequeno bando de acólitos samurais dominaria toda a terra, mostrara como havia um lugar vital para ela no quebra-cabeça chamado sonno-joi.

— Como cortesã de suprema classe, você se tornará a confidente de poderosos e como a esposa de um deles, pois assim casará, não se preocupe, terá filhos samurais, será indispensável para o novo futuro, com uma parcela do poder. Nunca se esqueça disso!

Meikin, sua mama-san, era partidária; assim, naturalmente, ela concordara, a imaginação devorada por sua bravura, coragem e seu grupo de shishi, o início de sua fortuna.

— Nossa sorte acabou — dissera ele e relatara a emboscada da noite anterior, sua fuga com mais duas pessoas. — Fomos traídos... não sei por quem, mas temos de nos dispersar... por enquanto.

— As cabeças de quarenta shishi espetadas em chuços? —sussurrara ela, transtornada.

— Isso mesmo, quarenta. E quase todos eram líderes. Só três escapamos, outro shishi, e uma moça... uma pupila minha. Preste atenção, Koiko-chan, pois não há muito tempo. O favor de uma vida inteira que quero lhe pedir é guardar essa moça, enquanto permanecer em Quioto, abrigá-la em sua casa, até mesmo levá-la de volta a Iedo, e...

— Por mais que eu quisesse, sinto muito, seria difícil demais já que o general Akeda é muito rigoroso com as pessoas. Trataria de interrogá-la pessoalmente... foi o que fez com todas as minhas ajudantes.

Koiko falara com o máximo de gentileza que podia, embora por dentro se sentisse horrorizada por ele ousar lhe fazer uma sugestão tão perigosa, a de acolher uma fugitiva shishi, mesmo que inocente.

— Claro que será difícil, mas tenho certeza de que você poderá arrumar tudo sem que ele a veja.

— Não creio que seja possível e temos de pensar também em lorde Yoshi.

Ela deixara esse problema adicional no ar, torcendo frenética para que ele retirasse o pedido de favor. Mas Katsumata insistira, suave, observando-a com seus olhos penetrantes e compulsivos, explicando que Sumomo ficaria segura com Koiko, que era samurai, noiva de um importante shishi, merecia toda confiança.

— Sinto muito, mas tenho de lhe pedir isso, por sonno-joi. Ela é de confiança. E se houver algum problema, mande-a embora. Ela fará qualquer tarefa que mandar... Agora tenho de ir, Koiko-chan. Um favor de uma vida inteira, para um velho amigo.

— Espere. Se... Terei de consultar o general Akeda, mas mesmo que possa evita-lo, devo consultar o resto do meu pessoal. E o que lhes direi? Não conheço essas pessoas de Quioto, não sei como elas são.

—A mama-san garante que merecem toda confiança — dissera Katsumata, com plena convicção. — Falei com ela, e obtive sua aprovação, Koiko, caso contrário não faria a sugestão. Diga a verdade, que Sumomo é uma moça voluntariosa, e que seu guardião... um velho cliente... quer reprimi-la, treiná-la nas úteis artes femininas. Não posso levá-la comigo e quero deixá-la protegida aqui. Tenho uma obrigação com seu noivo. Ela obedecerá a você em tudo.

Koiko estremeceu ao pensar no perigo a que se expunha, e também as pessoas pelas quais era responsável, Teko e suas atendentes, quatro criadas, uma cabeleireira e uma massagista. Felizmente, todas haviam concordado em aceitar aquela estranha e em ajudar a mudar seus hábitos... e o interrogatório de Akeda não descobrira qualquer falha.

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