— Foi uma experiência excepcional... a sensação de invisibilidade... boa demais para não experimentá-la de novo, por maior que seja o perigo. O perigo acrescenta um tempero? Experimentarei de novo em Iedo. Será mais fácil à noite; treinarei guardas especiais para me acompanharem.

— Por favor, desculpe, mas sugiro que tenha um certo comedimento no consumo dessa droga.

— É o que pretendo. — Os braços de Yoshi a apertaram, ambos se sentindo confortáveis. — Mas pode muito bem se desenvolver num vício.

Yoshi dormia no cômodo ao lado. Como todo o complexo de alojamentos, os aposentos eram masculinos, com um mínimo de móveis, o tatame de primeira qualidade, mas precisando ser trocado. Não terei nenhum desagrado ao sair daqui, pensou ele. Seus ouvidos captaram o som de passos se aproximando, e a mão deslocou-se para o cabo da espada. Os dois ficaram tensos.

— Sire? — disse uma voz abafada.

— O que é? — perguntou Yoshi.

— Sinto muito incomodá-lo, Sire, mas acaba de chegar uma carta do Dente do Dragão.

Sem precisar que lhe fosse pedido, Koiko foi para o lado da porta, fora do caminho, e ali se manteve, de guarda. Yoshi aprontou-se.

— Abra a porta, sentinela — ordenou ele.

A porta foi aberta. O homem hesitou, vendo Yoshi numa posição de defesa-ataque, a espada solta na bainha.

— Entregue o pergaminho à dama Koiko.

O homem obedeceu e se retirou em seguida. Depois que ele chegou ao final do corredor e passou pela porta que havia ali, Koiko fechou a porta do aposento. Foi entregar o pergaminho a Yoshi e ajoelhou-se na sua frente. Ele rompeu o lacre. A carta da esposa indagava por sua saúde, comunicava que os filhos e o resto da família passavam bem e aguardavam ansiosos por seu retorno. Depois, as informações começavam:

Os garimpeiros estiveram viajando diligentes, acompanhados por seu vassalo Misamoto. Ainda não encontraram ouro, mas informam a existência de grandes — a palavra que usaram foi “imensos”— depósitos de carvão de alta qualidade, fácil de extrair, próximo à superfície. Soube que eles dizem que isso é o “ouro negro” e poderia ser lucrativamente negociado com os gai-jin por dinheiro. Eles continuam a procurar. Recebemos a notícia de que Anjo foi feito tairo, e se gaba de que você será em breve convidado a se retirar do Conselho de Anciãos. Próximo assunto, o confidente que você visitou a caminho de Quioto diz o seguinte: a palavra de código que ele lhe deu a respeito de um inimigo é correta, e que há um plano similar pronto, como a política de estado do inimigo.

Céu Escarlate. Portanto, um ataque-relâmpago é “Política de Estado”! Meu acordo com Ogama será mantido?

Ele pôs essa questão de lado, para analisá-la mais tarde, e continuou a ler:

O ronin, Ori, que se tornou um espião gai-jin, morreu no acampamento gai-jin. Acredita-se que o outro ronin, Hiraga, também se encontre ali. Seu espião diz também que interceptou a “criada” que você mandou de volta, como ordenado, e despachou-a para o norte, para um bordel muito pobre. O amante ronin dela foi morto.

Yoshi sorriu. Era a criada de Koiko que sussurrara sobre o encontro secreto de Utani para seu ronin shishi. No meio do caminho para Quioto, ele a dispensara, mandando-a de volta a Iedo, por causa de uma desconsideração imaginária... e é claro que Koiko não fizera qualquer objeção. Ótimo, pensou ele. Utani está vingado, mesmo que em pequena escala.

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