Yoshi releu a carta. Conhecendo Hosaki muito bem, sabia que a maneira como ela usara “
Ele olhou para Koiko. Ela tinha o olhar perdido no espaço, mergulhada em sonhos que Yoshi sabia que nunca poderia partilhar.
— Koiko?
— Ah... Pois não, Sire?
— Em que está pensando?
— O que as folhas sussurram para as folhas.
Intrigado, ele comentou:
— Depende da árvore.
Ela sorriu, um doce sorriso.
— Um bordo, um bordo vermelho.
— Em que época?
— No nono mês.
— Se estiverem observando, sussurram: “Em breve tombaremos para nunca mais voltar. Mas eles são abençoados. Crescem na árvore da vida. O sangue deles é o nosso sangue.”
Koiko bateu palmas, sorrindo.
— Perfeito! E se fosse um pinheiro, na primavera?
— Não agora, Koiko-chan. Mais tarde.
Percebendo a súbita seriedade, ela também ficou séria.
— Más notícias, Sire?
— Não e sim. Partirei ao amanhecer.
— Para o Dente do Dragão?
Ele hesitou e Koiko especulou se cometera um erro ao perguntar, mas Yoshi pensava no que fazer com ela. Antes, avaliando a necessidade de outra marcha forçada, decidira seguir à frente e ela iria atrás, o mais depressa que pudesse. Agora, contemplando-a, não queria que Koiko ficasse longe. Seu palanquim os atrasaria. Ela sabia cavalgar, embora não muito bem, e a viagem seria árdua. De qualquer forma, o plano que combinara com Akeda persistiria:
— A primeira coluna de quarenta homens, com um duble usando uma das minhas armaduras leves, parte pouco antes do amanhecer, e segue sem pressa, de uma maneira óbvia, para a estrada do Norte. No meio do caminho para Iedo, fará a volta, retornando para cá, meu duble desaparecendo. A segunda coluna, a minha, com os homens que trouxe de Iedo, partirá pouco depois da primeira, e seguirá depressa para a Tokaidô. Marcha forçada, sob o comando do mesmo capitão. Estarei disfarçado como um samurai de cavalaria comum, e assim permanecerei, até me encontrar são e salvo no castelo em Iedo.
— Muito perigoso, Sire — protestara o general Akeda.
— Também acho. Você ficará vigiando Ogama. Será vantajoso para ele se eu conseguir controlar Anjo.
— Tem razão. Mas é um alvo irresistível lá fora e bem fácil. Veja o que aconteceu hoje. Deixe-me acompanhá-lo.
— Impossível. Se Ogama decidir desfechar sua ofensiva, atacará primeiro aqui... é melhor esperar por isso. Deve repeli-lo a qualquer custo.
— Não falharei, Sire — garantira o velho general.
E eu não falharei no empenho de alcançar Iedo, pensou Yoshi, com igual confiança. Quanto ao ataque, só faz me lembrar que não foi o primeiro e não será o último.
Ele constatou que Koiko o observava. É mais fácil ser equilibrado quando ela está perto de mim. A luz do lampião faiscava em seus lábios e olhos, ele admirou a curva das faces, a coluna do pescoço, os cabelos pretos, as dobras impecáveis do quimono, deixando à mostra um pouco de sua pele alva. Curvas suaves, a postura perfeita, as mãos, como flores, pousadas no colo de seda azul.
Ela teria de viajar sem bagagem. E sem criadas. Teria de se contentar com que pudesse encontrar nas sucessivas estalagens. O que a desagradaria, pois ela gosta de perfeição. Talvez rejeite essa desconsideração e o que seria para ela uma pressa desnecessária. Yoshi recordou a primeira vez que sugerira isso.
Acontecera há não muito tempo, logo depois que decidira obter sua exclusividade, e dissera à
Meikin disse-lhe que seria preciso pelo menos uma semana para planejar a viagem, pois Koiko levaria sua cabeleireira, a massagista e três criadas.
— Ridículo! — protestara ele, impaciente. — Não há necessidade de tantas atendentes para uma viagem tão curta, e seria uma despesa desnecessária. Vocês duas partirão de imediato.