O guarda olhou pela estrada, que seguia sinuosa na direção de Quioto, agora vazia, sob o céu escuro e ameaçador. Uma rajada de vento sacudiu os mantos de palha.
— Depressa, seu idiota! — gritou ele, impaciente, para um carregador seminu, cambaleando sob uma pesada carga.
Ele baixou a primeira barra, o rosto gretado pelo vento, e depois a segunda tomando a barreira firme, e se afastou em busca de abrigo e de uma sopa quente.
— Ei, olhe ali! — Uma falange de cavaleiros contornava a curva da estrada — Abra a barreira!
— Eles que esperem. Estão atrasados.
O guarda usou o dorso da mão para limpar um persistente corrimento do nariz contraindo os olhos contra o vento. Assim como os outros guardas, examinou os cavaleiros, calculou que eram trinta ou quarenta, cansado demais para contar com precisão. Como não havia estandartes, não devem ser importantes. Cobertos da poeira da viagem, os pôneis escumando. Havia duas mulheres no centro, escarranchadas, usando chapéus grandes com véus, presos por baixo do queixo. Ele riu para si mesmo. Não vão conseguir aposentos esta noite, não poderão dormir aconchegados, pois a aldeia está lotada. Pois que se danem.
Quando o grupo se aproximou, o capitão Abeh, na vanguarda, gritou:
— Abram a barreira!
— Estou indo, estou indo — resmungou o guarda, sem a menor pressa. Arrependeu-se um momento depois. Abeh saltou da sela, O golpe deixou o guarda sem sentidos.
— Abram a barreira! — berrou Abeh de novo, furioso.
Dois outros cavaleiros haviam desmontado também, Yoshi, com um lenço cobrindo o rosto, e Wataki, que fora recompensado por ajudar a salvar a vida de Yoshi. Um oficial saiu da casa da guarda, aturdido ao deparar com seu homem estendido no chão, inconsciente.
— O que está acontecendo aqui? Você está preso!
— Abram logo essa barreira!
— Você está preso!
Abeh contornou a barreira e ninguém podia se equivocar quanto ao perigo.
— Abram a barreira, depressa!
Guardas correram para obedecer, mas o oficial ainda insistiu:
— Quero ver os documentos de identidade, e...
— Escute aqui, seu macaco! — O capitão Abeh foi até o oficial, que ficou paralisado. — Visitantes importantes exigem boas maneiras, sem nenhum atraso numa noite fria, e ainda nem é o pôr-do-sol.
Com isso, ele desferiu um golpe no lado da cabeça do oficial, que cambaleou, para logo ser derrubado com um segundo golpe violento. Para os estupefatos guardas, Abeh acrescentou:
— Digam a esse tolo para se apresentar a mim ao amanhecer, ou vou usá-lo para prática de espada, assim como ao resto de vocês!
Ele acenou para que o cortejo passasse pela barreira, depois tornou a montar, e foi atrás. Poucos minutos mais tarde, já providenciara os melhores aposentos, na melhor estalagem. As pessoas para as quais estavam reservados fizeram reverências enquanto fugiam, gratas pelo privilégio de desocupá-los... ricos mercadores, outros samurais, nenhum dos quais disposto a uma briga até a morte, que seria inevitável se resistissem.
Yoshi tirou o chapéu e o lenço depois que as portas de
— Seu nome, estalajadeiro? — perguntou Yoshi.
— Ichi-jo, Sire.
Ele achou que “Sire” era o título mais seguro.
— Primeiro um banho, depois massagem, a comida em seguida.
— Pois não, Sire. Posso ter a honra de lhe mostrar o caminho pessoalmente?
— Mande uma criada para cuidar disso. Comerei aqui. Obrigado. Pode ir agora.
O homem fez uma reverência untuosa, levantou-se e afastou-se bamboleando.
O capitão Abeh confirmou as disposições de segurança: sentinelas cercariam o bangalô de oito cômodos. Os aposentos de Koiko davam para a varanda, que seria vigiada durante todo o tempo. Entre seus aposentos e os de Yoshi, haveria um cômodo com mais dois guardas.
— Está certo, capitão. E agora vá dormir um pouco.
— Obrigado, mas não me sinto cansado, senhor.
Yoshi ordenara que o tratassem como um
— Mas terá de dormir. Preciso de você alerta. Ainda teremos muitos dias de viagem.
Yoshi percebeu um súbito brilho no fundo dos olhos injetados de fadiga do jovem e indagou:
— Oque é?
Apreensivo, Abeh murmurou: