— Desculpe, por favor, mas se é urgente a viagem para Iedo, seria mais seguro se fosse escoltado à frente da dama.

— Vá dormir — reiterou Yoshi. — Homens cansados cometem erros. Foi também um erro agredir o oficial. O guarda já era suficiente.

Ele dispensou o homem. Abeh fez uma reverência e se retirou, criticando a si mesmo pela estupidez de dizer uma coisa tão óbvia. Por três vezes ele fizera paradas desnecessárias naquele dia e duas no anterior. Foi verificar todas as sentinelas, seguiu para seu quarto e deitou-se. Em poucos momentos, mergulhou em profundo sono.

Depois do banho e da massagem, depois da comida, ingerida devagar, embora estivesse faminto, Yoshi saiu para o corredor. A decisão de trazer Koiko fora fácil. Ocorrera-lhe que ela seria um chamariz perfeito e dissera a Akeda para cuidar que todos soubessem que apenas a enviava sob escolta para Iedo, enquanto ele seguia separado.

— Perfeito! — concordara Akeda.

Ele entrou no cômodo exterior. Estava vazio, a porta de shoji fechada.

— Koiko? — chamou Yoshi, acomodando-se em uma das duas almofadas. A porta de shoji foi aberta. Sumomo se encontrava ajoelhada ali, segurando-a para Koiko, os olhos no tatame, os cabelos levantados, ao estilo de Quioto, as sobrancelhas depiladas, um pouco de maquilagem nos lábios. Uma melhoria agradável, pensou ele.

No momento em que o viu, Koiko também se ajoelhou, e as duas fizeram uma reverência ao mesmo tempo. Yoshi notou que a de Sumomo era perfeita, com a mesma graciosidade de Koiko, e isso também o agradou. Não havia qualquer sinal de que a viagem árdua afetara Sumomo. Ele retribuiu a saudação. As camas de futon já haviam sido arrumadas.

Koiko passou para o outro cômodo, sorrindo, e Sumomo fechou a porta de shoji.

— Como se sente, Tora-chan?

A voz de Koiko era doce, como sempre, o penteado perfeito, mas o quimono era o mesmo da noite anterior, o que jamais acontecera antes. Apreensivo, Yoshi notou um certo desconforto, quando ela se instalou na outra almofada.

— A viagem está sendo difícil demais para você?

— Os primeiros dias não podiam deixar de ser um pouco árduos, mas logo estarei tão resistente quanto... — Havia um brilho divertido nos olhos de Koiko. —... quanto Domu-Gozen.

Ele sorriu, mas sabia que cometera um erro de julgamento. Três estações de posta haviam sido cobertas no dia anterior, e o mesmo hoje, mas em nenhum dos dias fora percorrida a distância que ele desejava. A viagem a extenuava. Cometi um erro que não deveria ter ocorrido. Ela nunca vai se queixar, irá além de seu limite, pode até se prejudicar.

Preciso de tanta pressa? Claro que sim. Ela estará segura num palanquim, com uma escolta de dez homens? Com toda certeza. Seria sensato reduzir minha guarda em tantos homens? Não. Poderia chamar mais homens de Iedo esta noite, mas isso me custaria cinco ou seis dias. O instinto me diz que devo me apressar, os gai-jin são imprevisíveis. Anjo também, e até Ogama... que ameaçou: “Se você não cuidar deles, eu cuidarei.”

— Koiko-chan, vamos para a cama. Amanhã é amanhã.

De madrugada, Sumomo ficou deitada nos futons quentes, debaixo de cobertas, no quarto externo, um braço sob a cabeça, sonolenta, mas não cansada, e tranqüila.

A respiração de Yoshi era irregular, a de Koiko quase imperceptível. Ela podia ouvir os sons da noite lá fora. Um cachorro latindo em algum lugar, insetos noturnos, o vento na folhagem, um guarda murmurando para outro de vez em quando, o barulho de pratos e panelas na cozinha, onde o pessoal começava a trabalhar ainda cedo.

Seu primeiro sono fora ótimo. Os dois dias de exercícios vigorosos e liberdade haviam-na deixado vibrante. E também sentia-se satisfeita com os elogios de Koiko pela maneira como arrumara os cabelos naquela noite —ensinada por Teko — e acrescentara um pouco de cor aos lábios.

Tudo estava dando certo, melhor do que ela sonhara. Seu objetivo imediato fora alcançado. Fora aceita. E se encontrava a caminho de Iedo. Ao encontro de Hiraga. Integrava a comitiva de Yoshi e se mantinha contida. Katsumata lhe dissera:

— Não seja impetuosa. Não assuma nenhum risco, em qualquer circunstância, a menos que haja uma possibilidade de escapar. Perto dele, você é de grande valor. Não arruíne isso, nem envolva Koiko.

— Ela nada saberá a meu respeito?

— Apenas o que eu disse a ela, o mesmo que você sabe.

— O que significa que ela já está envolvida, não é? Falo isso porque o seu Yoshi pode me aceitar.

— Ele é que tomará a decisão, não ela. Seja como for, Sumomo, ela não é sua cúmplice. Se descobrisse suas verdadeiras ligações, em particular com Hiraga, e seus possíveis propósitos, trataria de detê-la... nem poderia agir de outra forma.

— Possíveis propósitos? Por favor, qual é o meu dever principal?

— Estar pronta. Melhor uma espada à espera do que um cadáver.

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