Ao amanhecer, Yoshi saiu da cama, passou para o cômodo externo, ajeitou a yukata de dormir, a respiração visível no ar frio. Koiko remexeu-se, viu que ele estava bem e voltou a cochilar. No outro cômodo, os futons e cobertas de Sumomo já estavam guardados no armário, a mesa baixa posta para a primeira refeição do dia, as duas almofadas nos lugares corretos.

Lá fora, o frio era mais intenso. Ele calçou as sandálias de palha, atravessou a varanda para ir à privada, acenou com a cabeça para o criado à espera, escolheu um balde vazio na fileira que havia ali e urinou. O fluxo era forte, e isso o agradou. Havia outros homens ao seu lado. Yoshi não lhes dispensou qualquer atenção nem eles o fitaram. Ele dirigiu o fluxo para o constante enxame de moscas, não esperando afogar alguma.

Ao terminar, ele foi para a outra parte, agachou-se sobre um buraco vazio no banco, com homens e algumas mulheres nos dois lados, inclusive Sumomo. Em sua mente, Yoshi se encontrava sozinho, ouvidos, olhos e narinas fechados contra a presença dos outros, que também faziam a mesma coisa. Essa capacidade imperativa era cultivada desde a infância.

— Você deve se empenhar nisso mais do que em qualquer outra coisa ou sua vida se tornará insuportável — haviam incutido nele, como em toda criança. — Ali onde convivemos lado a lado, crianças, pais, avós, criados e outras pessoas, onde todas as paredes são de papel, a privacidade tem de ser cultivada em sua cabeça e só pode existir ali, por você e também como uma polidez essencial aos outros. Só assim poderá permanecer tranqüilo, só assim será civilizado, só assim, conseguirá permanecer são.

Distraído, Yoshi afugentou as moscas. Uma ocasião, quando era pequeno, perdera a paciência com duas ou três moscas que o atormentavam e tentara esmagá-las. O que lhe valera um imediato tapa, a face ardendo em dor, e mais ainda pela vergonha que lhe causara o pesar da mãe, a necessidade de aplicar a punição.

— Sinto muito, meu filho — murmurara ela. — As moscas são como o nascer e o pôr-do-sol, inevitáveis, exceto que podem ser um tormento... se você lhes permitir. Deve aprender a ignorá-las. Todos os dias, pelo tempo que for necessário por quantos dias forem necessários, fique de pé ali, por favor, deixe que as moscas pousem em seu rosto e mãos, sem se mexer. Até que elas se tornem nada. Moscas nada devem ser... use sua vontade, pois é para isso que a possui. Nada devem representar para você, pois assim não arruinarão sua harmonia, nem também, o que é ainda pior, a harmonia dos outros...

Agora, sentado ali, Yoshi sentia as moscas em suas costas e rosto. Não o incomodavam.

Ele acabou num instante. O papel-de-arroz era de boa qualidade. Sentindo-se vivo e bem, Yoshi estendeu as mãos para que o criado despejasse água. Depois que as mãos ficaram limpas, ele molhou o rosto com água de outro recipiente, estremeceu, aceitou uma pequena toalha, enxugou-se, voltou à varanda e conscientemente abriu os sentidos.

Ao seu redor, a estalagem despertava, os poucos pôneis sendo selados e escovados, homens, mulheres, crianças e carregadores já comendo, conversando ruidosamente ou partindo para a próxima etapa da viagem, indo ou vindo de Quioto. Na área comum, perto da entrada, Abeh inspecionava homens e equipamentos. Ao avistar Yoshi, ele foi ao seu encontro.

Porque havia pessoas por perto, o capitão não fez uma reverência, descobrindo que era algo muito difícil. O uniforme era elegante e ele parecia revigorado.

— Bom dia. — Ele teve de fazer um grande esforço para não acrescentar “senhor”. — Já estamos prontos para partir, no momento que desejar.

— Depois da primeira refeição. Providencie um palanquim para a dama Koiko.

— Imediatamente. Para pôneis ou carregadores?

— Pôneis.

Yoshi voltou a seus aposentos e comunicou a Koiko que ela não precisaria cavalgar naquele dia. Viajaria de palanquim, e ao cair da noite ele verificaria o progresso, para decidir como seria o resto da viagem. Sumomo cavalgaria, como antes.

Ao cair da noite, haviam coberto apenas duas estações de posta.

HAMAMATSU

Yoshi escolheu a estalagem das Garças Azuis para a noite, nem a melhor, nem a pior da aldeia, Hamamatsu — um conjunto aprazível de casas e estalagens à beira da Tokaidô, renomada por seu saquê, no ponto em que a estrada dava uma volta e descia em direção ao mar.

Depois de comer sozinho, como sempre fazia, Yoshi foi se juntar a Koiko — se comessem juntos, invariavelmente, pelo costume, ela quase nada comeria, fazendo uma refeição antes, a fim de poder se concentrar nas necessidades dele. Naquela noite, Yoshi estava com vontade de jogar Go. Era um jogo complexo de estratégia, com pedras brancas e pretas, cada um dos dois jogadores tentando bloquear e capturar as pedras do outro.

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