Ambos eram bons jogadores, mas Koiko era uma virtuose, a tal ponto que podia, quase sempre, vencer ou perder a seu critério. Isso tornava o jogo duas vezes mais difícil para ela. Yoshi lhe ordenara que nunca perdesse deliberadamente, mas ele próprio era mau perdedor. Se ela ganhasse num dia errado, ele ficava irritado. Uma vitória num de seus dias ruins acabava com todo o mau humor. Naquela noite ele venceu, por pouco.
— Oh, Sire, me destruiu por completo! E eu pensava que ia vencer!
Estavam em seu quarto, com as pernas no reduzido espaço sob a mesa baixa, com um pequeno braseiro, envoltos por um grosso pano acolchoado, para impedir a entrada de aragens e manter o calor dentro.
— Está bem aquecido, Sire?
— Estou, sim, Koiko, obrigado. Ainda sente dores?
— Não tenho mais nenhuma. A massagista foi muito eficiente esta noite, — Ela gritou: — Sumomo, saquê e chá, por favor!
No outro cômodo, Sumomo pegou o frasco e o bule de chá em outro braseiro, abriu a porta de shoji e entrou. Serviu os dois e Koiko balançou a cabeça, em satisfação.
— Aprendeu a cerimônia do chá, Sumomo? — perguntou Yoshi.
— Aprendi, Sire, mas receio que me falte habilidade.
— Lorde Yoshi é um mestre — comentou Koiko, tomando um gole de saquê. Suas nádegas e costas doíam dos solavancos no palanquim durante o dia, as coxas de dois dias a cavalgar, e a cabeça do esforço para perder, enquanto dava a impressão de que cobiçava a vitória. Tudo isso ela escondia, e também seu desapontamento pelo pouco progresso naquele dia. Era evidente que isso decepcionara Yoshi. Mas ambos sabíamos que outra marcha forçada não será possível, pensou ela. Ele deve continuar sozinho, e eu o seguirei. E será bom me manter a distância por algum tempo. Esta vida é cansativa, por mais maravilhoso que ele seja. beberam em silêncio, rompido por Yoshi:
— Amanhã, bem cedo, partirei com trinta homens, deixando dez para escolta-la sob o comando de Abeh. Poderá me seguir mais devagar.
— Certo. Com sua permissão, posso segui-lo o mais depressa que puder?
Ele sorriu.
— Isso muito me agradaria, mas desde que chegue sem dores, no corpo ou no espírito.
— Mesmo que tal acontecesse, seu sorriso me curaria no mesmo instante. Outro jogo?
— Boa idéia, mas não
Koiko riu.
— Neste caso, devo fazer alguns preparativos.
Ela se levantou, foi para o aposento externo, fechando a porta de shoji. Yoshi ouviu-a falando com Sumomo, mas não prestou atenção, sua mente absorvida pelo dia seguinte, Iedo e os
Suas vozes se perderam na distância, quando elas saíram. Ele terminou o saquê, apreciando-o, foi para o outro quarto, onde os futons e as colchas se achavam estendidos sobre o tatame impecável. Paisagens de inverno e cores fortes eram os ornamentos predominantes. Yoshi tirou a
Quando Koiko voltou, ouviu-a andar por um momento no outro cômodo, e depois entrar no banheiro, onde havia recipientes para a noite, caso fossem necessários, assim como jarros com água para se beber e outros para se lavar.
— Mandei Sumomo dormir em outro quarto esta noite — avisou ela. — Também pedi a Abeh para postar um guarda lá fora, com ordens para não deixar ninguém nos incomodar.
— Por que fez isso?
Ela entrou no quarto.
— É a nossa última noite por algum tempo... mencionei para ele que não viajaria em sua companhia amanhã... e o quero todo para mim.
Sem pressa, Koiko tirou o quimono e aconchegou-se ao seu lado. Embora já a tivesse visto nua muitas vezes, sentido seu contato outras tantas, e dormido com ela em inúmeras ocasiões, aquela noite foi a melhor de todas.
QUIOTO
No palácio em Quioto, um dos espiões do lorde camarista bateu na porta de seu quarto, acordando-o, e entregou o recipiente de mensagem levada por pombo-correio.
— Isto acaba de ser interceptado, lorde.
O pequeno cilindro era endereçado ao conselheiro-chefe do
Anjo enviara a mensagem ao amanhecer: