É típico de Morgan dar instruções secretas a Gornt e me manter na ignorância. O que mais ele disse que Gornt não me contou? Não importa, Morgan é astuto, com toda a coragem do Velho, só que mais insinuante, mais moderno, sem loucuras, sem riscos... sem nenhuma das obsessões brutais e implacáveis de seu pai. Morgan é o nosso verdadeiro tai-pan e será o tai-pan da nova Casa Nobre. Foram necessários apenas vinte anos para destruir a companhia de Dirk, a maior que já existiu na Ásia.

Satisfeito, Norbert terminou de tomar o scotch, apagou a luz e acomodou-se, com um bocejo. Lamento não ter conhecido o Velho em seu auge, nem o tai-pan, O Demônio de Olhos Verdes, que só os ventos malignos do Grande Tufão conseguiram matar. Ainda bem que este jovem tolo não herdou nenhuma de suas qualidades.

O último convidado já se retirara. Apenas Angelique, Jamie McFay e Malcolm continuavam na sala. As brasas na enorme lareira de canto luziam quando uma aragem descia pela chaminé, para depois se apagarem. Malcolm, em silêncio, o rosto franzido, olhava para a lareira, vendo imagens nas brasas. Angelique sentava no braço de sua poltrona, apreensiva. McFay estava encostado na mesa.

Boa noite, tai-pan — disse ele.

Malcolm saiu de seu devaneio.

— Hum... Espere um pouco. — Ele sorriu para Angelique. — Desculpe Angel, mas tenho algumas coisas para discutir com Jamie. Você se importa de nos deixar a sós?

— Claro que não. Boa noite, Jamie. — Ela inclinou-se, beijou Struan afetuosamente. — Boa noite, Malcolm. Durma bem.

— Boa noite, querida. Devemos partir cedo.

— Está bem... mas, por favor, Malcolm, posso perguntar o motivo de toda aquela gritaria? Não entendi nada. Pode me explicar?

— Foi inveja, nada mais.

— Mas é claro! Como você se mostrou forte e moderno! E tem toda razão sobre os canhões e o ópio... foi muito sensato, chéri. Obrigada. — Ela tornou a beijá-lo. — A que horas vamos sair amanhã de manhã? Estou tão excitada... a viagem será uma change superbe.

— Pouco depois do amanhecer. Cuidarei para que seja acordada a tempo, mas não se surpreenda se... se houver uma mudança de plano. Marlowe disse que o tempo pode mudar.

— Mas ele jurou que o vento amainaria e seria um dia maravilhoso para um passeio.

— Eu disse “pode mudar”, Angel. — Malcolm abraçou-a. — Se não for amanhã, será no primeiro dia possível. Ele prometeu.

— Espero que seja amanhã. Je t’aime, chéri.

Je t’aime.

Depois que ela saiu, o silêncio na sala se tornou ainda mais opressivo. Chen tornou a dar uma espiada pela porta e Malcolm ordenou:

— Feche a droga dessa porta e não volte.

A porta foi fechada com vigor. Jamie fez menção de falar, mas Malcolm levantou a mão.

— Não diga nada sobre navios, canhões ou ópio. Por favor.

— Está bem.

— Sente-se, Jamie.

Malcolm pensara em todas as respostas do almirante e formulara um plano para cada uma das várias possibilidades: se o almirante decidisse que podiam fazer a viagem com sua bênção, ou se a viagem se realizasse, mas com Marlowe proibido de celebrar a cerimônia, ou se a viagem fosse adiada para algum momento do futuro. Por enquanto, ele pôs de lado as contramedidas.

— Gostaria que mandasse nosso cúter a vapor se aproximar da Pearl pouco antes do amanhecer. O contramestre deve descobrir com Marlowe se nossa viagem continua de pé, ou não. Qualquer que seja a resposta, peça ao contramestre para vir até aqui me informar. Certo?

— Claro.

— Escrevi a carta para Norbert e entreguei a Gornt esta noite. Portanto, essa parte ficou resolvida. Esqueci alguma coisa?

— Sobre quartá-feira?

— Isso mesmo.

— Nada, ao que eu saiba. Já definiu os caminhos e horários, as pistolas serão comuns, não haverá médicos presentes, já que tanto Babcott quanto Hoag são considerados inseguros. As cartas são suas únicas defesas. Não haverá testemunhas, além de Gornt e eu.

— Ótimo. Está pronto para partir com o Prancing Cloud?

— Mandarei uma valise para bordo junto com a nossa correspondência amanhã. Ninguém deve notar. E seus baús?

— Só vou levar um. Despache para bordo amanhã... e se alguém disser qualquer coisa, são algumas roupas que estou enviando na frente, à espera do meu retomo a Hong Kong para o Natal.

— Chen vai arrumar tudo para você?

— Não há outro jeito. Pedirei que ele jure segredo, mas é claro que isso só funcionará para a nossa sociedade, não entre os chineses. Terei de levá-lo comigo. Ah Tok é um problema, mas pode permanecer aqui, à espera de nossa “mudança de verdade”. Será preciso revelar o segredo a Ah Soh. Ela irá conosco para Hong Kong.

— E Angelique?

— Não há necessidade de dizer nada a ela. Se sairmos na Pearl, Ah Soh pode arrumar roupas num baú, e mandar para bordo com a mesma desculpa, depois do anoitecer de amanhã, como precaução. Certo?

— Certo.

— Na manhã de quarta-feira, nós dois sairemos pelos fundos, como planejamos. Pouco depois, Chen, Ah Soh e Angelique, usando um capuz, atravessarão a estrada para o nosso cais, onde você terá o cúter a vapor esperando para levá-los ao clíper...

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