— Deixe tudo comigo. — Ele apostava de novo que, através de Raiko, fornecendo a ela informações importantes, assim como dinheiro, poderia fazer os contatos certos para se aproximar de Yoshi. — Ele será nossa chave para abrir o Japão. Teremos de investir algum dinheiro, não muito. Mas no bolso certo...
Ele fizera uma pausa, soltara uma risadinha.
— Garanto o sucesso. Ele será nosso cavaleiro da reluzente armadura. Vamos ajudá-lo a se tornar Sir Galahad para arruinar os planos do rei Arthur de Wee Willie.
Por que não, ele disse a si mesmo, mais uma vez, parado ali, com Tyrer, outra peça essencial no tabuleiro de xadrez do domínio francês na Ásia. Phillip vai...
Por Deus! Ele quase explodiu quando a idéia incrível aflorou em sua mente: Se Struan morrer no duelo, e Angelique se tornar uma carta livre, ela poderia vir a ser uma Guinevere para esse japonês Yoshi? Por que não? Talvez ele apreciasse uma iguaria diferente. Através de Raiko, quem sabe se Angelique... pois ela ficaria perigosamente sem recursos e com isso seria vulnerável.
André riu, pôs a idéia de lado, como inebriante demais para considerar naquela noite.
— Phillip — disse ele, querendo que o inglês o considerasse seu melhor amigo —, se pudermos ajudar nossos superiores a chegar a uma solução definitiva e a pusermos em prática... o que acha disso?
— Seria maravilhoso, André!
— Um dia você será o embaixador aqui.
Tyrer riu.
— Não diga bobagem.
— Falo sério. — Apesar do fato de que sempre estariam em lados opostos e de sua necessidade de influenciá-lo, ele gostava sinceramente de Tyrer. — Dentro de um ano, você estará falando e escrevendo um japonês fluente, terá a confiança de Wee Willie, e contará com seu trunfo, Nakama, para ajudá-lo. Por que não?
— Por que não? — repetiu André, sorrindo. — É uma idéia agradável para encerrar uma noite. Bons sonhos, André.
Quase ninguém na colônia dormia tão contente quanto Angelique — a bomba lançada por Struan naquela noite, somada à ansiedade pela guerra iminente, no Japão e na Europa, manteve a maioria acordada.
— Como se não fosse suficiente ter de me preocupar com a nossa própria guerra civil — murmurou Dmitri para seu travesseiro, na profunda escuridão de seu quarto, no prédio da Cooper-Tillman.
As notícias que chegavam dos Estados Unidos eram cada vez piores, qualquer que fosse o lado que se apoiasse, e ele tinha parentes tanto no Sul quanto no Norte.
As baixas eram terríveis nos dois lados, havia pilhagens e incêndios, atrocidades, brutalidades, corrupções, tragédias monstruosas. Um tio escrevera de Maryland para informar que cidades inteiras eram incendiadas e saqueadas pelos guerrilheiros de Quantrill, do Sul, e pelos Jayhawkers, do Norte, e que os homens mais importantes do Norte haviam comprado para si mesmos e para seus filhos, legalmente, a isenção do serviço militar:
Seu pai escrevera de Richmond, dizendo a mesma coisa:
Dmitri revirava-se na cama, tentando pôr de lado o sofrimento de sua nação, mas não conseguia.
No clube, ainda havia discussões ruidosas e embriagadas entre os poucos mercadores que ainda se encontravam no bar. Uns poucos oficiais do exército e da marinha, Tweet e outros sentavam-se às mesas espalhadas pela sala, tomando o último drinque da noite.
Perto da janela, o conde Zergeyev e o recém-chegado ministro suíço, Fritz Erlicher, sentavam-se a uma mesa. O russo escondia seu divertimento e inclinou-se por cima dos copos de porto.
— São todos tolos,
— Acha que o jovem Struan pretende mesmo fazer o que disse?
— Ele falou sério, mas resta saber se essa política será ou não implementada. — Falavam em francês e Zergeyev explicou o conflito entre mãe e filho na Struan. — É esse o rumor atual, ela controla tudo, embora ele tenha o título legalmente.
— Se for implementada, seria bom para nós.
— Ah! Tem uma proposta?
— Uma idéia, conde Zergeyev.
Erlicher desfez o nó da gravata, passou a respirar com mais facilidade. O ar no clube era enfumaçado e abafado, o cheiro de cerveja e urina intenso, e a serragem no chão precisava ser trocada.