Norbert acendeu o lampião a óleo. Seu quarto era grande, com uma vasta cama de dossel, o chão atapetado, óleos nas paredes de navios da Brock... sua frota menor que a da Struan, mas com o dobro de vapores. Alguns quadros haviam sido chamuscados pelo incêndio, e o teto também ainda não fora reparado de todo. Havia livros empilhados nas mesas de canto, e um aberto em cima da cama.
— O pobre coitado endoidou de vez. — Norbert soltou outra risada. — A primeira coisa que temos a fazer é cancelar o duelo, para mantê-lo vivo. Agora, é isso que...
O sorriso desapareceu.
— Ei, espere um pouco, do que estou falando? É tudo uma tempestade num penico. Ele não é o
Gornt sorriu.
— Eu discordo.
Norbert fitou-o nos olhos.
— Como?
— Ela vai concordar.
— É mesmo? Por quê?
— Segredo.
— Que tipo de segredo?
Norbert olhou para a porta, aberta nesse instante. Lee, um idoso cantonês, com um rabicho comprido e grosso, vestindo uma libré impecável — casaco branco, calça preta — entrou com os copos, champanhe num balde com gelo, uma toalha no braço. Momentos depois, a champanhe foi servida. Depois que Lee se retirou, fechando a porta, Norbert levantou seu copo.
— Saúde e morte a todos os Struans. Que segredo?
— Disse-me para tentar fazer amizade com ele. Foi o que fiz. Agora, ele confia em mim. Primeiro...
— Confia mesmo?
— Até certo ponto, mas melhora a cada dia que passa. Primeiro, sobre esta noite. O motivo para ele escrever a carta e fazer o anúncio foi obter o favor do almirante, em segredo.
— Como assim?
— Posso?
Gornt apontou para a garrafa de champanhe.
— Claro. Sente-se e explique.
— Ele precisa da aprovação do almirante para embarcar na Pearl e esse é p mo...
— Mas do que está falando?
— Ouvi-os por acaso, conversando em particular... eles saíram depois do jantar. Eu olhava alguns quadros ali perto... tinha notado duas obras de Aristotle Quance... e escutei o que diziam. — Gornt relatou quase que palavra por palavra. — Ao final, Ketterer disse: “Vamos ver o que você pode fazer em dez ou quinze minutos”
— Isso foi tudo? Nada sobre o que há a bordo, o que há de tão importante na Pearl?
— Não, senhor.
— Estranho, muito estranho. O que poderia ser?
— Não sei. Toda a noite foi estranha. Durante o jantar, percebi Struan olhando na direção do almirante por várias vezes, mas nunca seus olhos se encontraram. Era como se o almirante evitasse deliberadamente, mas sem ser óbvio demais. Foi isso que despertou minha curiosidade, senhor.
— Onde o almirante estava sentado?
— Ao lado de Angelique, no lugar de honra, à sua direita, com Sir William no outro lado. Deveria ser o contrário... outro fato curioso. Fiquei ao lado de Marlowe, que contemplava Angelique extasiado, e falou sobre assuntos navais, tudo muito aborrecido, nada sobre qualquer viagem amanhã, embora eu tenha a impressão de que Struan já planejara tudo, na dependência da aprovação do almirante. Depois que o almirante foi embora, puxei conversa com Marlowe sobre amanhã, mas ele disse apenas: “Talvez eu faça uma pequena viagem experimental, meu caro, se o Velho aprovar. Por que pergunta?” Expliquei que gostava de navios e indaguei se podia ir também. Ele riu, disse que arrumaria uma viagem para mim no futuro, e depois se retirou também.
— Nada sobre Struan e a moça?
— Não, senhor. Mas Marlowe não despregava os olhos dela.
— Por causa dos peitos dela. — Norbert soltou um grunhido. — Quando Struan fez o comunicado, o que aconteceu?
— Primeiro, houve silêncio, depois o pandemônio, perguntas, algumas risadas, umas poucas vaias. Marlowe e os outros oficiais da marinha aplaudiram, em meio a muitas manifestações de raiva. McFay empalideceu, Dmitri quase cuspiu, Sir William ficou olhando para Struan, balançou a cabeça, como se o pobre coitado fosse alvo de compaixão. Concentrei-me em Ketterer. Ele não deixou transparecer coisa alguma, não disse nada a Struan, além de murmurar um “
Norbert esvaziou seu copo. Gornt pegou a garrafa para servi-lo de novo, mas ele sacudiu a cabeça.
— Não gosto de tomar muito champanhe de noite, pois me faz peidar. Sirva-me um
— Não sei.
— O que Struan fez depois que Ketterer saiu?