— Somos uma nação pequena e independente, com poucos recursos, mas com muita coragem e habilidade. Os britânicos, por quem vocês não sentem o menor amor, monopolizam a maior parte da fabricação de armamentos e a venda por toda a Europa... embora a fábrica de Krupp pareça promissora. — O homem barbudo e corpulento sorriu. — Soubemos que a Mãe Rússia possui substancial interesse nessa fábrica.

— Você me espanta.

Erlicher riu.

— Espanto a mim mesmo às vezes, Herr conde. Mas eu queria mencionar que dominamos os fundamentos da fundição de canhões e outras armas. Em particular, posso informá-lo que estamos negociando com a Gatling para fabricar sua metralhadora, sob licença. Já temos condições de abastecê-los com quaisquer armas que possam precisar, a longo prazo.

— Obrigado, meu caro senhor, mas não precisamos disso. O czar Alexandre II é um reformador, amante da paz, no ano passado emancipou nossos escravos, e este ano iniciou a reforma do exército, marinha, burocracia, judiciário, educação, de tudo enfim.

Erlicher sorriu.

— E, enquanto isso, ele preside a maior conquista territorial da história, subjugando mais povos do que qualquer outro soberano, à exceção de Genghis Khan e suas hordas mongóis. Genghis avançou para oeste... — O sorriso se alargou. — ...enquanto as hordas do seu czar espalham-se para leste. Por todo o continente! Imagine só! Por todo o continente, até o mar, através da Sibéria, até a península de Kamchatka. E isso não é o fim, não é mesmo?

— Não é? — murmurou o conde, sorrindo.

— Ouvimos dizer que o czar espera passar por sua nova fortaleza em Vladivostok para as ilhas japonesas, seguir para o norte, até as Kurilas, mais para o norte, até as Aleutas, para fazer a junção com o Alasca russo, que se estenderá até o norte da Califórnia. Enquanto o mundo dorme. Espantoso. — Erlicher tirou do bolso sua caixa de charutos, ofereceu. — Por favor... são os melhores cubanos.

Zergeyev pegou um charuto, cheirou-o, rolou-o entre os dedos, aceitou a chama estendida.

— Obrigado. E mesmo excelente. Todos os suíços são sonhadores como você?

— Não, conde. Somos amantes da paz, bons anfitriões de amantes da paz, mas permanecemos em nossas montanhas, bem-armados, observando o mundo exterior. Por sorte, nossas montanhas são inóspitas para aqueles que aparecem sem serem convidados.

Outra explosão de gritos distraiu-os por um momento, Lunkchurch, Swann, Grimm e outros mais clamorosos do que o habitual.

— Nunca estive na Suíça. Você deveria conhecer a Rússia. Temos muitas vistas para regalar os olhos.

— Já estive em sua linda São Petersburgo. Há três anos, passei alguns meses em nossa embaixada ali. A melhor cidade da Europa, em minha opinião, para quem é da nobreza, rico ou diplomata. Deve sentir muita saudade.

— Morro de saudade, mais do que pode imaginar. — Zergeyev suspirou. — Não demora muito agora para que eu volte. Já fui informado de que meu próximo posto será Londres... e aproveitarei para visitar suas montanhas.

— Eu me sentirei honrado em ser seu anfitrião. — Erlicher puxou o charuto, soltou um anel de fumaça. — Então, minha sugestão de um negócio não o interessa?

— É verdade que os britânicos monopolizam todos os tipos de empreendimentos, todas as rotas marítimas e os mares, todas as riquezas das terras subjugadas... — Não havia qualquer condescendência no sorriso de Zergeyev. — ...coisas que deveriam ser partilhadas.

— Neste caso, não deveríamos voltar a conversar num ambiente mais tranquilo?

— Durante o almoço, por que não? Sem dúvida, eu comunicaria tudo a meus superiores. Se houver uma necessidade futura, onde posso encontrá-lo ou a seus superiores?

— Aqui está meu cartão. Se perguntar por mim em Zurique, não terá qualquer dificuldade para me encontrar.

Erlicher observou-o ler a caligrafia magnífica do novo e milagroso processo de impressão que haviam acabado de inventar. O conde Zergeyev tinha feições elegantes, um aristocrata em todos os poros, com roupas impecáveis, enquanto sabia que as suas eram medíocres e que seus antepassados haviam sido meros camponeses. Mas não o invejava. {

Sou um suíço, pensou ele. Sou livre. Não tenho de fazer uma reverência, ajoelhar ou tirar o chapéu para qualquer rei, czar, sacerdote ou homem — se não quiser. De certa forma, este pobre coitado ainda é um servo. Graças a Deus por minhas montanhas e meus vales, por meus irmãos e irmãs, por viver entre eles, todos livres, como eu sou livre, e assim permanecerei.

Perto do balcão, meio bêbado, cambaleando, Lunkchurch apoiava-se comicamente em outro homem e berrava a plenos pulmões:

— Que a porra do Struan perdeu a porra do juízo é uma porra...

— Por favor, Barnaby, pare de usar essa linguagem infame! — gritou o reverendo Tweet, abrindo caminho para a porta, o colarinho um pouco torto, o rosto vermelho e suado. — Quando se pensa a respeito, de um ponto de vista justo e inglês, não se pode deixar de reconhecer que o jovem Struan assumiu a posição moral correta.

Lunkchurch, completamente embriagado, fez um gesto grosseiro para o reverendo.

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