— Enfie a porra da santimônia na porra do rabo!

Roxo de raiva, o reverendo Tweet cerrou o punho e desferiu um golpe ineficaz. Os mais próximos de Lunkchurch o arrancaram do caminho, como sempre, enquanto outros cercavam Tweet, procurando acalmá-lo. Depois, Charlie Grimm, sempre disposto a aceitar um desafio, qualquer desafio, berrou acima do tumulto, e de seu próprio nevoeiro da embriaguez:

— Barnaby, prepare-se para encontrar seu criador!

Atenciosos, os homens ao redor se afastaram para lhes dar espaço, e os dois, sob aclamações, começaram a se esmurrar, com o maior empenho.

— Drinques por conta da casa! — ordenou o chefe dos barmen, para os que ainda se encontravam no clube. — Scotch para o reverendo, porto para o conde e seu convidado. E agora vocês dois parem de brigar!

Tweet aceitou o uísque e cambaleou para uma mesa bem distante dos dois brigões, que agora rolavam pelo chão, a beligerância ainda intensa. O barman suspirou, esvaziou um balde de água suja sobre eles, contornou o balcão, pegou um em cada mão e expulsou-os para a High Street, sob mais aplausos.

— Senhores, por favor, está na hora de fechar! — anunciou ele, sob vaias que logo cessaram.

Todos terminaram seus drinques e começaram a se retirar. Zergeyev e Fritz Erlicher ergueram o chapéu polidamente para o clérigo.

— Reverendo — disse Swann, o mercador magro que atuava como diácono —, que tal procurar pelos pecadores na cidade dos bêbados?

— Como se diz, Sr. Swann, já estou indo.

Em sua pequena casa, na Yoshiwara, Hinodeh esperava. Furansu-san dissera que viria naquela noite, mas podia se atrasar. Ela estava vestida para se despir, o quimono de noite e os quimonos interiores da melhor qualidade, os cabelos a rebrilhar, travessas de casco de tartaruga e de prata ornamentando o penteado armado, que deixava à mostra nuca impecável, as travessas ali só para serem tiradas... para permitir que os cabelos caíssem até a cintura, escondendo o erótico.

Gostaria de saber o que há de tão erótico na nuca de uma mulher para excitar os homens, especulou ela; e por que escondê-la é também erótico? Ah, como os homens são estranhos! Mas Hinodeh sabia que deixar os cabelos caírem excitava Furansu-san, tanto quanto qualquer outro cliente, e essa era a sua única concessão ao pacto entre os dois. Não fazia qualquer outra coisa na luz.

No escuro, antes do amanhecer, quando estavam juntos, sua maiko acordava, e ela se vestia sem acender qualquer luz, quer ele despertasse também, ou não. Depois, ia para o outro quarto, fechava a porta, que a maiko ficava vigiando, e voltava a dormir, se por acaso se sentia cansada. Furansu-san concordara que nunca entraria naquele santuário... depois da primeira vez, ela insistira:

— Dessa maneira, a privacidade da noite pode se estender pelo dia.

— Como assim?

— Com isso, o que você viu uma vez nunca vai mudar, não importa o que os deuses determinem.

Um tremor percorreu seu corpo. Por mais que tentasse, não podia reprimir a sensação de que a semente do vil deus Pústula, implantada por Furansu-san dentro dela, estava adquirindo força, crescendo, preparando-se para irromper por toda parte. Todos os dias, ela se examinava. De uma forma meticulosa. Só podia confiar em Raiko para verificar naqueles pontos que ela não podia ver e que ainda continuavam imaculados.

— Todos os dias é demais, Hinodeh — dissera Raiko, antes de concordar com o contrato. — Pode não acontecer nada por anos...

— Sinto muito, Raiko-san. Todos os dias é uma condição.

— Por que resolveu concordar? Tem um bom futuro em nosso mundo. Talvez nunca alcance a primeira classe, mas é instruída, sua mama-san diz que tem uma longa lista de clientes, que está satisfeita com você, disse que poderia casar com um próspero mercador, fazendeiro ou fabricante de espadas, que é sensata, e não lhe faltaria uma boa união.

— Agradeço sua preocupação, Raiko-san, mas acertou com minha mama-san que nunca me interrogaria, nem bisbilhotaria meu passado, para descobrir de onde vim ou procurar explicações. Em troca, partilha com ela uma porcentagem do dinheiro que ganharei este ano, e talvez no outro. Deixe-me repetir: aceitei o contrato porque é o que desejo.

Isso mesmo, é o que desejo, e me sinto afortunada.

Tinha agora vinte e dois anos. Nascera numa fazenda nos arredores de Nagasáqui, na província de Hizen, na ilha do Sul. Aos cinco anos, fora convidada a ingressar no mundo flutuante por uma das muitas intermediárias que viajavam pelo país à procura de crianças que pudessem se tornar gueixas, pessoas das artes, as que podiam ser treinadas, como Koiko, nas artes, e não apenas como uma netsujo-jin, uma pessoa para a paixão. Seus pais concordaram, receberam dinheiro e uma nota promissória para cinco pagamentos anuais, a começar dez anos depois, a quantia dependendo do sucesso da criança.

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