— Mensagem recebida! — Ele inclinou-se para Angelique e acrescentou: — Sinto muito, mas temos de subir agora.

Nesse momento, ouviu-se ali embaixo o sino da ponte de comando. O oficial de máquinas apressou-se em cumprir a ordem. Homens correram para fechar válvulas, abriram outras, acionaram alavancas, verificaram os mostradores. À medida que a força do vapor diminuía, o enorme eixo e o motor se tornaram mais lentos, o barulho diminuiu, os foguistas apoiaram-se agradecidos em suas pás, os peitos arfando para aspirar o ar impregnado de poeira de carvão, torceram as toalhas penduradas no pescoço. Um homem virou-se, praguejou, sua voz ainda abafada pelo barulho, abriu a calça e urinou sobre os carvões, num jato que terminou em vapor, sob as risadas dos outros. Marlowe apressou-se em pegar Angelique pelo braço e tirou-a dali. Um foguista a notou, depois outro, e antes que ela desaparecesse, todos olhavam em silêncio para seu vulto se afastando. Assim que ela saiu, um deles fez movimentos obscenos, sob mais risadas, misturadas com um silêncio repentino e triste.

No convés lá em cima, com a súbita falta de barulho, aspirando o ar marinho, ela sentiu-se tonta por um instante, e apoiou-se no braço de Marlowe.

— Você está bem?

— Estou, sim. Obrigada, John. Foi... extraordinário.

— Acha mesmo? — murmurou ele, distraído, sua atenção nos marujos no cordame, içando e ajustando as velas. — Imagino que é a reação de todo mundo, na primeira vez. No mar, durante uma tempestade, as coisas lá embaixo não são fáceis. Foguistas e engenheiros formam uma raça à parte.

Marlowe conduziu-a até Malcolm.

— Lamento, mas tenho de deixá-los por um momento.

Ele desceu para seu camarote, que ficava na popa. O fuzileiro de sentinela bateu continência à sua passagem. O cofre da fragata ficava embaixo de seu beliche. Marlowe abriu-o, nervoso. A mensagem do almirante era curta: “Cumpra as ordens lacradas, l/Al6/12.” Havia no cofre o diário de bordo, códigos, dinheiro para pagamento, livro de pagamento, livro de punições, manuais, manifestos, recibos, os regulamentos navais e vários envelopes lacrados, que recebera dan capitânia naquela manhã.

As mãos tremiam um pouco quando ele encontrou o envelope correto. Seria a ordem de retornar à esquadra ou de se preparar para a guerra? Marlowe sentou à mesa, cercada por cadeiras, tudo aparafusado no convés, e rompeu o lacre.

— Foi extraordinário lá embaixo, Malcolm! Terrível, de certa forma, todos aqueles homens, uma coisa espantosa... e se é assim num pequeno navio como este, como seria num grande vapor... como, por exemplo, o Great Eastern?

— É de fato um navio incrível, Angel. Testemunhei seu lançamento no Tamisa, na última vez em que estive em Londres, há quatro anos, quando concluí a escola... e não pode imaginar como me senti contente por terminar os estudos. O navio é todo de ferro, quatro toneladas, o maior do mundo até agora, construído para transportar emigrantes, milhares de cada vez, até a Austrália. O lançamento prolongou-se por semanas... foi efetuado de lado e quase afundou. O pobre Brunel, que projetou e construiu o navio, quebrou muitas vezes, arrastando várias companhias na queda. Era um navio azarado, pegou fogo na viagem inaugural, quase naufragou... e isso o matou. Nunca viajarei nele... azarado como é, desde o início...

Malcolm avistou Marlowe aproximando-se pelo convés e franziu o rosto. Não havia agora qualquer sinal de jovialidade no rosto do oficial. O contramestre badalou o sino oito vezes. Meio-dia.

— Assuma o comando, Número Um — disse Marlowe.

— Pois não, senhor.

— Por que não leva miss Angelique para a proa? Talvez ela goste de examinar de perto os nossos canhões.

— Com prazer. Vamos, miss?

Obediente, Angelique seguiu-o pelo convés. Ele era baixo, sardento, e da sua altura.

— É galês, Sr. Lloyd? — perguntou ela.

Ele riu e respondeu numa voz monótona:

— Tão galês quanto as colinas de Llandridod Wells, onde nasci.

Angelique riu também, inclinou-se contra o convés inclinado e sussurrou:

— Por que estou sendo afastada como uma colegial?

— Não faço a menor idéia, miss. — Ela viu os olhos castanhos de Lloyd se desviarem para trás, e depois se fixarem nela. — O capitão quer falar sobre o almoço, com certeza, ou perguntar a ele, a seu homem, se quer usar o banheiro. Conversa de homem.

Os olhos sorriam enquanto ele falava.

— Gosta dele, não é?

— O capitão é o capitão. E agora os canhões, miss!

A risada de Angelique ressoou, os marujos nas proximidades ficaram encantados. Malcolm e Marlowe, na ponte de comando, também ouviram, e viraram-se para olhar.

— Ela é uma imagem graciosa, Malcolm.

— Também acho. Mas estava me falando do almoço.

— Acha que é satisfatório? O cozinheiro é de primeira classe na torta de maçã.

O cardápio seria guisado de peixe, pastelão e bolinhos fritos de galinha e carne de porco, galinha assada fria, queijo Cheddar e torta de maçã.

— Tenho duas garrafas de Montrachet 55, geladas, que venho guardando para uma ocasião especial, e um Chambertin 52.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги