Naquela mesma noite, fora impelido a se contemplar no espelho. Tinha de ser feito. Alguma força o obrigara a ver de verdade, pela primeira vez em anos, a se estudar de fato, profundamente, e não apenas o rosto.

Ao final, pensara: É isso o que você é, continua ferido gravemente por dentro, não pode se empertigar direito, suas pernas não funcionam como deveriam, mas pode ficar de pé, pode andar, e vai melhorar. O resto do seu corpo funciona e a mente também. Aceite. Lembre o que a mãe e o pai sempre lhe disseram, desde que era criança: “Aceite seu joss, é o que Dirk Struan sempre dizia. Dirk não tinha a metade de um pé e isso não o impedia de fazer as coisas. Dirk foi baleado e cortado uma dúzia de vezes, quase morreu em Trafalgar como carregador de pólvora, quase foi destruído por Tyler Brock meia dúzia de vezes. Aceite seu joss. Seja chinês, era o conselho de Dirk. Faça o melhor que pode e o resto que se dane.

Seu coração batera forte. Dirk, Dirk, Dirk. Que se dane Dirk Struan! Detesto quando jogam Dirk na minha cara, sempre me apavorei com a possibilidade de não ser capaz de me mostrar à altura de sua imagem impossível. Admita-o!

O reflexo não respondera. Mas ele o fizera.

— Tenho o sangue dele, tenho sua Casa Nobre para dirigir, sou tai-pan, faço o melhor que posso, mas nunca ficarei à sua altura, admita isso, que Deus o amaldiçoe, é essa verdade! É esse meu joss.

Ótimo, seu reflexo parecera dizer. Mas por que odiá-lo? Ele não o odeia. Por que odiá-lo como tem odiado por toda a sua vida... porque o odiou por toda a vida, não é mesmo?

— Isso é verdade, eu o odeio, sempre odiei!

Dizer em voz alta deixara-o chocado. Mas era verdade... todo o amor e respeito não passavam de uma impostura. Sempre o odiara, mas de repente, na frente do espelho, não mais o fazia. Por quê?

Não sei. Talvez seja por causa de Edward Gornt, talvez ele seja o bom espírito que me libertou do passado, assim como quer se libertar do seu. Morgan não envenenou sua vida, a de sua mãe e a de seu pai? Não que Dirk envenenasse a minha, mas seu espectro se interpôs entre a mãe e o pai e envenenou-os... não era esse o joss deles, que o pai morresse odiando-o, e por mais que a mãe o idolatre abertamente... também não o odeia, no fundo de seu coração, por ele não ter casado com ela?

Ali, na ponte de comando da fragata, Malcolm recordou o suor frio que o encharcara, e depois mais tarde, bebendo algum uísque, mas não a outra coisa, rompendo sua obsessão naquele momento, e tomando conhecimento de outra verdade: ansiava pela poção, tornara-se um viciado.

Verdades demais confrontadas. Não era fácil encarar a si mesmo, a missão mais difícil — e mais perigosa — que um homem pode realizar, e deve fazer pelo menos uma vez na vida, para ficar em paz. E foi o que eu fiz, gostando ou não.

— Número Um — disse o jovem sinaleiro ao tenente Lloyd, a luneta focalizada em seu equivalente distante — mensagem da nave capitânia, senhor.

Dois conveses abaixo, a casa de máquinas era uma masmorra de calor e barulho vibrando, poeira, escuridão e mau cheiro, iluminada por quadrados de carvões em brasa, quando foguistas seminus abriam as fornalhas sob as enormes caldeiras para jogar mais carvão ou retirar as brasas para a entrada de mais e mais carvão.

Angelique e Marlowe estavam parados numa das grades de ferro por cima, o ar impregnado pelo cheiro de coque, fogo, óleo ardendo, suor e vapor. Os corpos lá embaixo brilhavam de suor, homens barrigudos, com músculos estufados, as pás raspando no convés de ferro para ficarem cheias de carvão, que era lançado com um movimento hábil na fornalha, e espalhado numa camada igual, para pegar fogo no mesmo instante, e logo precisar de reabastecimento.

Na direção da popa, o motor vibrando brilhava de cuidado e óleo, mais homens usando latas com bicos compridos esguichavam óleo nas juntas, enquanto outros limpavam com refugos de algodão, outros cuidavam dos mostradores, bombas e válvulas, o motor girando o hélice contra a pressão do mar. Jatos de vapor das válvulas, mais óleo e limpeza, uma constante atenção dispensada aos êmbolos, alavancas, engrenagens, mais carvão jogado nas fornalhas. Angelique achou tudo muito excitante... os homens lá embaixo pareciam alheios à presença deles.

Orgulhoso, Marlowe apontava e explicava, por cima do barulho, e ela respondia com um aceno de cabeça, um sorriso de vez em quando, segurando em seu braço de leve, para se firmar, sem ouvir nada, nem preocupada em escutar dominada pela casa de máquinas, que lhe parecia um Valhalla masculino, onde máquinas casavam com homens, agora eram parte deles, primitivas, mas ao mesmo tempo futuristas, escravos cuidando de seus amos, e não o contrário.

Sem ser percebido, o sinaleiro aproximou-se por trás e bateu continência. Não sendo visto, ele se adiantou, bateu continência de novo e rompeu o encantamento de Angelique. Entregou a mensagem escrita a Marlowe, que a leu rapidamente depois balançou a cabeça para o sinaleiro e gritou:

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