Malcolm sentiu um frio no estômago e foi até a janela. Chocado, viu o cúter balançando a duzentos metros da praia. Sem ondas na proa. Pôs-se a praguejar, furioso, e depois avistou a fumaça começando a sair pela chaminé, as ondas na proa aparecerem, enquanto o cúter adquiria velocidade. Esquadrinhou o convés com o binóculo, mas só pôde ver o contramestre gritando, com os remos num lado, para o caso de outro colapso. Àquela velocidade, o cúter alcançaria o cais da companhia em menos de dez minutos.

Ele se vestiu, ajudado por Chen. Uma rápida olhada indicou que o cúter se encontrava quase atracando. Ele abriu a janela, esticou a cabeça para fora enquanto o contramestre subia para o cais e desatava a correr, tão depressa quanto a enorme barriga permitia.

— Ei, contramestre!

O homem grisalho ofegava ao se aproximar da janela.

— O Capitão Marlowe envia seus cumprimentos — balbuciou ele. — Espera senhor e a dama a bordo.

Struan deixou escapar um grito de alegria. Mandou chamar Ah Soh e ordenou-lhe que acordasse e vestisse Angelique, o mais depressa possível. Depois, em loz baixa, acrescentou:

— Preste atenção, Chen, e não me interrompa, ou vou explodir como uma bomba...

Ele deu instruções sobre o que embalar, e o que ordenar que Ah Soh embalasse, para depois despachar os baús para o Prancing Cloud, ao pôr-do-sol.

— A dama e eu jantaremos a bordo, e também dormiremos ali. Vocês dois também ficarão no navio, e voltarão para Hong Kong conosco...

— Hong Kong! Ah, tai-pan...

— ...e ambos ficarão com a boca mais fechada do que o ânus de uma mosca ou pedirei a Chen da Casa Nobre para remover seus nomes do livro da família.

Chen empalideceu. Malcolm nunca usara essa ameaça antes. O livro da família era a ligação de todo chinês do sexo masculino com a imortalidade, com seus ancestrais no passado místico e com os descendentes distantes, quando ele próprio seria considerado um remoto ancestral. Sempre que nascia um chinês no mundo, seu nome era escrito nos registros da aldeia ancestral. Sem isso, ele não existia.

— Pois não, amo. E Ah Tok?

— Falarei com ela. Vá chamá-la.

Chen passou pela porta. Ah Tok esperava ali fora. Ele se afastou apressado. Ela entrou. Struan comunicou que decidira que ela iria no navio seguinte e ponto final.

Oh ko, meu filho — murmurou Ah Tok, na voz mais suave. — O que decide para sua velha mãe não é o que sua velha mãe decide que é melhor para si mesma e para seu filho. Voltaremos para casa. Manteremos silêncio. Nenhum dos fétidos demônios estrangeiros jamais saberá. Mas é claro que todas as pessoas civilizadas vão se interessar pela trama. Voltaremos para casa juntos. Vai levar sua prostituta com você?

Ela resistiu às invectivas de Malcolm, ordenando-lhe que nunca mais usasse aciuela palavra... ou qualquer outra parecida.

— Ah... — murmurou ela, ao se retirar, a voz definhando a pouco e pouco, — por sua velha mãe não chamará aquela prostituta de sua prostituta outra vez, mas e todos os deuses são testemunhas de que se não é prostituta que devo chamá-la, então prostituta não é o tratamento correto? Meu filho está demente...

Mas a raiva de Malcolm se evaporou quando viu Angelique.

— Ah, mas você está linda!

Ela usava um traje de montaria, botas, saia comprida, justa na cintura, colete, gravata e casaco, um chapéu com uma pluma verde e luvas, mas sem o chicote.

— Achei que seria o melhor para um passeio de barco, querido. —murmurou Angelique, com um sorriso glorioso.

— Sejam bem-vindos a bordo.

Marlowe esperava-os no alto da escada, esplêndido em seu uniforme. Antes de passar para o convés, Malcolm, meio desajeitado, apoiou-se com a mão esquerda, Angelique segurando suas muletas, e ergueu a cartola, formal.

— Permissão para ir a bordo?

Marlowe bateu continência, com um sorriso.

— Sejam bem-vindos. Posso?

Ele ofereceu o braço a Angelique, tonto pela intensidade do sorriso dela e pelo corte do casaco, que realçava o corpo. Levou-os para a ponte de comando, à frente da chaminé. Esperou que Malcolm se acomodasse numa cadeira, antes de dizer a seu número um, Davyd Lloyd:

— Vamos zarpar, mister Lloyd. Um quarto à frente e mantenha uma velocidade firme.

A Pearl zarpou, impulsionada pelo motor a vapor.

— Assim que nos afastarmos, vamos aumentar a velocidade — explicou Marlowe. — O almirante ordenou que conduzíssemos os testes à vista da nave capitânia.

A felicidade de Struan se desvaneceu.

— À vista dele? Não vamos sair para alto-mar?

Marlowe riu.

— Acho que ele gosta de manter seus “filhos” sob rédea curta. Mas prometo que será divertido.

Ou seja, estamos a bordo, mas não pelo motivo certo, pensou Struan. O desgraçado é um sádico! E se o almirante estivesse a bordo naquele momento, ele tinha certeza de que o mataria com a maior satisfação. Isto é, não chegaria a esse ponto, mas daria uma boa lição no patife. Ele vai se arrepender de não ter me ajudado. Quando eu voltar, inverterei tudo e criarei um problema que ele nunca mais vai esquecer.

Mas, até lá, o que faço agora?

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