— Você vive muito bem — comentou Malcolm, impressionado.
Marlowe sorriu.
— Nem tanto, mas é um dia especial, e para dizer a verdade, surrupiei o Chambertin... era o favorito do meu velho. E ele me deu duas caixas do Montrachet, quando parti.
— Ele é da marinha?
— É, sim. — A maneira como Marlowe falou expressava surpresa pela pergunta. — É comandante-em-chefe em Plymouth.
Ele hesitou, fez menção de falar, parou.
— Qual é o problema? Recebeu ordem para voltarmos?
— Não. — Marlowe fitou-o nos olhos. — Esta manhã me entregaram diversas ordens lacradas, junto com a permissão de trazê-lo para bordo, e voltar ao pôr-do-sol, sem falta. Há poucos minutos, a nave capitânia ordenou-me que abrisse um dos envelopes lacrados. Não havia uma ordem expressa para lhe contar, nem para deixar de contar. Talvez você possa me explicar tudo. A mensagem dizia: “Devo um favor peculiar ao Sr. Struan, e você pode,
O mundo parou para Malcolm Struan. Não sabia se estava vivo ou morto, a cabeça girava, e com certeza teria caído se não estivesse sentado.
— Deus Todo-Poderoso! — exclamou Marlowe. — Contramestre, vá buscar uma dose de rum, o mais depressa possível!
O contramestre afastou-se, enquanto Malcolm conseguia balbuciar:
— Não, não precisa... estou bem... mas, para ser franco, um trago de rum seria ótimo.
Ele podia ver os lábios de Marlowe se mexendo, e sabia que era sacudido, mas seus ouvidos não escutavam coisa alguma além das batidas do próprio coração. Um momento depois, no entanto, sentiu o vento no rosto e o som do mar retornou.
— Tome aqui, senhor — disse o contramestre, aproximando o copo de seus lábios.
O rum escorreu pela garganta. Em segundos, Struan sentiu-se melhor. Fez menção de se levantar.
— Melhor ir devagar, senhor — murmurou o contramestre, preocupado. — Parece que viu um fantasma.
— Não um fantasma, contramestre, mas vi um anjo... seu capitão! Marlowe ficou aturdido, e Malcolm acrescentou, tropeçando nas palavras.
— Não estou louco. John... desculpe, capitão Marlowe... há algum lugar aqui em que possamos ter uma conversa em particular?
— Claro. Aqui mesmo.
Contrafeito, Marlowe gesticulou para o contramestre, que deixou a ponte de comando. Só o timoneiro e o sinaleiro permaneceram.
— Sinaleiro, vá para a proa. Timoneiro, tape os ouvidos.
Struan disse:
— Meu pedido peculiar é o seguinte: quero que você navegue para alto-mar e celebre meu casamento com Angelique.
— Como?
Foi a vez de Marlowe ficar atordoado. Ouviu Malcolm repetir, e balbuciou:
— Você está mesmo louco!
— Não, não estou. — Malcolm tinha o controle agora, seu futuro em jogo, com as palavras do almirante,
E ele começou. Poucos minutos mais tarde, o camareiro subiu à ponte de comando e logo se retirou. Voltou mais tarde, para anunciar:
— Com os cumprimentos do cozinheiro, senhor, o almoço está servido em seu camarote.
Marlowe, no entanto, acenou-lhe outra vez para que se retirasse, concentrado, não querendo interromper.
— ...e esse é o motivo — concluiu Malcolm —, o porquê do almirante, meu, seu, de minha mãe. Agora, por favor, vai conceder meu favor peculiar?
— Não posso. — Marlowe sacudiu a cabeça. — Sinto muito, meu velho. Nunca casei ninguém e duvido que os regulamentos permitam.
— O almirante lhe deu permissão para fazer o que eu pedisse.
— Ele teve o maior cuidado: “
Ele fez uma pausa para respirar, balançou a cabeça, e acrescentou:
— Não poderia fazer isso de jeito nenhum, não...
— Por que não? Não nos aprova?
— Claro que aprovo vocês dois, mas sua mãe não... isto é, ela diz não ao casamento, Sir William meteu-se na história, a igreja não vai celebrar o casamento, nem os outros capitães, e não posso esquecer que os dois são legalmente menores de idade, e por isso, se eu me envolvesse... afinal, ela é menor, e não pode... não posso assumir o risco... — Marlowe teve uma súbita idéia, olhou na direção da praia — A menos que sinalize para Ketterer. Pedirei permissão.
— Se fizer isso, perderá prestígio para sempre. Se Ketterer quisesse que você fizesse isso, teria dito expressamente.
Marlowe tornou a olhar para ele, irritado. Releu a mensagem do almirante, soltou um grunhido. Seu futuro estava em jogo. Deus Todo-Poderoso, por que os comvidei para um passeio? Lembrou o que o pai sempre dizia: Na marinha, você comanda seu navio pelas normas e regulamentos, exceto se for o maldito Nelson, e só existiu um Nelson!
— Lamento, meu caro, mas não é possível.
— Você é a nossa última esperança... e agora a nossa única esperança.