— Capitão Donavan, poderia fazer o favor de pesquisar a situação legal?

— Pois não, senhor.

Seus olhos azuis tinham uma expressão implacável.

— Obrigado. Isso é tudo... por enquanto.

Foi a última coisa que Marlowe ouviu, antes de fechar a porta, e teve a sennsação de que seu coração recomeçava a bater. Struan esperava na ante-sala. Os fuzileiros montavam guarda, desconfiados.

— Por Deus, você se estrepou?

— Não, absolutamente. — Marlowe esforçava-se para aparentar calma. — O almirante, corretamente, quer um relatório por escrito, isso é tudo. Voltarei para meu navio. Vejo-o mais tarde. Antes que ele pudesse se retirar, a porta do camarote foi aberta e Marlowe morreu mais um pouco. O capitão Donavan passou por ele, mal reconhecendo sua presença ou a sua continência. Da porta, o ajudante-de-ordens anunciou:

— Sr. Struan, o almirante apresenta seus cumprimentos e pede que faça gentileza de entrar, por favor.

Struan entrou claudicando no camarote. O ajudante-de-ordens não o seguiu, mas fechou a porta e ficou esperando ali. Antes de se retirar, Marlowe fitou-o, mas seus olhos nada deixaram transparecer... e é claro que nenhum dos dois diria qualquer coisa na presença dos fuzileiros. Ketterer gesticulou para que Malcolm sentasse.

— Por um lado, posso lhe dar os parabéns — disse ele, com uma formalidade sombria, estendendo a mão.

— Obrigado, senhor. — Malcolm pegou a mão estendida, sentindo que o aperto do almirante era firme, mas a palma macia. — E por outro?

— Por outro, parece que vai ter um trabalho dobrado para cumprir suas promessas.

— Como assim?

— Parece que atiçou uma cova de serpentes malignas entre seus companheiros. Sir William vem sendo assediado por queixas.

— Como eu disse antes, farei o melhor possível.

— Deve fazer mais do que isso, Sr. Struan.

— Desculpe, almirante, mas o que isso significa?

— Significa nada mais ou menos do que já prometeu.

No curto silêncio que se seguiu, Malcolm decidiu que não se deixaria ser sufocado, mas também não esqueceria que aquele homem tornara seu casamento possível... não, não possível, ele se corrigiu no mesmo instante, “permitira” que fosse possível. John Marlowe tivera a coragem de tomar a iniciativa.

— O capitão Marlowe não se meteu em nenhuma encrenca, não é?

— O capitão Marlowe está sujeito aos regulamentos navais.

— Sei disso, mas creio que ele nos casou de acordo com os regulamentos navais, senhor. Li o parágrafo antes e não havia qualquer referência à questão da idade.

— Os regulamentos também declaram que qualquer casamento assim fíca sujeito à revisão imediata para determinar a sua viabilidade. É o que acontece neste caso.

— Ou seja, estou casado, mas ao mesmo tempo não estou. É isso o que está querendo dizer?

— Apenas ressalto, Sr. Struan, que todas as ocorrências fora do normal estão sujeitas a uma revisão, o que é a norma na marinha real.

Malcolm forçou um sorriso.

— Correto, senhor. Minha... — Ele quase usou a palavra “leitura”, mas pensou duas vezes e trocou-a. — ...minha compreensão da ordem, senhor, é de que lhe dava permissão.

Ketterer alteou uma sobrancelha.

— O capitão Marlowe lhe mostrou uma mensagem lacrada que enviei para ele?

— Pelo que compreendi, senhor, a ordem lhe concedia uma permissão qualificada... e confesso que me empenhei em perguntar as palavras exatas e persuadi-lo de que era esse o caso.

— Era o que eu esperava que fizesse — comentou o almirante, secamente. — Portanto, era uma permissão qualificada?

— Minha ordem foi enunciada com clareza: Se você solicitasse um favor peculiar, ele poderia concedê-lo, se assim o desejasse. Ontem à noite, não mencionou que gostaria de ir para alto-mar? Seu pedido peculiar poderia ser apenas isso... as ordens dele eram para realizar os testes à vista da nave capitânia.

Struan se esforçava para manter o controle, sentindo os recifes do desastre sob seus pés.

— Tem razão, senhor, poderia pensar assim. Se houve algum mal-entendido, foi meu, não do capitão Marlowe.

— Anotarei isso, Sr. Struan.

Malcolm observava o homem mais velho com todo cuidado, e escutava com mais atenção ainda, querendo descobrir para onde o almirante ia, agora com receio de que houvesse uma continuação do jogo de gato e rato. Estou outra vez em suas garras... nunca conseguirei escapar?

— Posso perguntar, almirante, por que deu ao capitão Marlowe o que foi talvez uma permissão qualificada, mas que eu certamente interpretaria da maneira errada? — Ele manteve o rosto impassível, não esquecendo que estava casado, até que a cerimônia fosse declarada ilegal. — Nunca pensei que o faria, ontem à noite.

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