Ele olhou para Angelique, que observava Jamie, impassível, procurando num molho de chaves. Especulou se ela sabia dos primos eurasianos de Malcolm e de seu tio, o compradore Gordon Chen — filho de Dirk com outra amante —, que segundo as intrigas de Hong Kong “conhecia mais segredos e tinha mais taéis de ouro do que um boi tinha pêlos”. O relógio no consolo da lareira bateu três horas.

— Quem mais tem chaves, Jamie? — indagou Skye.

— Apenas eu e... e o tai-pan.

— Onde estão as dele?

— Não sei. Presumo que ainda... ainda se encontram a bordo.

A porta do cofre foi aberta. Umas poucas cartas, todas com a letra de Tess Struan, exceto uma com a letra de Malcolm, aparentemente inacabada, uma pequena bolsa de camurça e uma carteira. A carteira continha uns poucos daguerreótipos desbotados de seu pai e mãe, espiando contrafeitos para a câmera, o sinete de Malcolm, uns poucos documentos... promissórias, uma lista de dívidas e devedores. Heavenly folheou tudo.

— Seriam dívidas de jogo que ele tinha, Jamie?

— Não faço a menor idéia.

— Dois mil, quatrocentos e vinte guinéus. Uma quantia considerável para um jovem emprestar ou dever. Reconhece algum destes nomes?

— Apenas este. Jamie fitou-o.

— Madame Emma Richaud? Quinhentos guinéus.

Angelique explicou:

— É minha tia. Ela e tio Michel me criaram, Sr. Skye. Chamava minha tia de mamãe, pois ela sempre foi uma mãe para mim, já que a minha morreu quando eu era pequena. Precisavam de ajuda, e Mal... Malcolm teve a gentileza de lhes enviar esse dinheiro. Pedi a ele.

— Jamie, eu gostaria de ter uma cópia desta lista, por favor. Você é obrigado a manter esses documentos em salvaguarda.

O advogado estendeu a mão para a meia dúzia de cartas, mas Jamie se antecipou.

— Eu diria que estas eram particulares.

— Particulares para quem, Jamie?

— Para ele.

— Obterei uma ordem judicial para vê-las e mandar copiá-las, se considerar que são importantes.

— Pode fazer isso — respondeu Jamie, rangendo os dentes, furioso consigo mesmo por ter concordado em abrir o cofre, antes de pedir o conselho de Sir William.

Angelique interveio:

— Posso vê-las, Jamie, por favor? Creio que são parte dos pertences de meu marido. No momento, parecem bem poucos.

A voz era tão gentil, tão triste, sem qualquer insinuação de súplica, que ele. suspirou, e disse a si mesmo: Rapaz, já está todo encrencado, não faz mais diferença. Sir William decidirá sobre a legalidade. E, de repente, ele voltou ao anoitecer do dia anterior, no cais, os três alegres e descontraídos, rindo, confiantes, as futuras nuvens de tempestade em Hong Kong parecendo muito distantes, e depois os dois no cúter, a caminho da noite de núpcias, com Malcolm dizendo:

— Obrigado, meu bom amigo. Guarde a nossa retaguarda, pois vamos precisar. Promete?

Ele prometera, jurara que faria isso, e também protegeria Angelique, desejando a ambos uma vida longa e feliz, acenara em despedida, o último na praia. Como Malcolm estava certo! Tivera uma premonição?

— Tome aqui — disse ele, gentilmente.

Sem olhar para as cartas, Jamie largou as cartas no colo de Angelique, que cruzou as mãos, tornou a ficar imóvel. Uma brisa agitou uma mecha de cabelos, perto da têmpora. Afora isso, ela parecia uma estátua.

O tinido de moedas atraiu a atenção de Jamie. Skye abrira a bolsinha de camurça. Continha guinéus de ouro e notas do Banco da Inglaterra. Ele contou, em voz alta. Os olhos de Angelique não se desviaram do cofre.

— Duzentos e sessenta e três guinéus. — Skye guardou tudo de volta na bolsinha. — Este dinheiro deve ser entregue imediatamente à Sra. Struan... ela dará um recibo, é claro.

Jamie disse:

— Talvez seja melhor que nós... eu e você, Heavenly... procuremos Sir Willian. Nunca estive envolvido em nada assim antes, estou fora da minha experiência... pode compreender, não é, Angelique?

— Também estou fora da minha experiência, jamie, à deriva. Sei que me Malcolm era seu amigo e que você era amigo dele, e meu também. Foi o que ele me disse, muitas vezes. Por favor, faça o que julgar melhor.

— Vamos falar com ele agora, Jamie — propôs Skye. — Quanto mais cedo, melhor. Ele pode decidir sobre a propriedade do dinheiro. Enquanto isso...

Ele se adiantou para entregar a bolsinha a Angelique, mas ela disse:

— Levem com vocês, levem tudo, isto também. — Ela estendeu as cartas — Basta me deixarem a fotografia. Obrigada, Sr. Skye. E agradeço a você também meu caro Jamie. Tornaremos a falar quando voltarem.

Os dois esperaram que ela se levantasse, mas Angelique não fez qualquer movimento.

— Não vai continuar aqui, não é?—indagou Jamie, perturbado, pois parecia macabro.

— Claro que vou. Passei tanto tempo aqui, nesta sala, que é... é acolhedora para mim. A porta para a minha suíte está aberta, se eu... se eu precisar descansar Mas, por favor, tirem Ah Tok daqui, a pobre coitada, e digam a ela para não voltar A pobre mulher precisa de ajuda. Peçam ao Dr. Hoag para vê-la.

— Quer que fechemos a porta?

— A porta? Não importa... podem fechar, se quiserem.

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