— Mas foi ela quem apresentou a acusação! — retrucou Skye, mantendo a voz baixa. — E também vai apresentar uma acusação neste caso. Se isto for lido no tribunal, num processo criminal ou cível, nosso advogado oponente alegaria que ele morreu fodendo... por favor, perdoe minha vulgaridade... “e a outra metade do ato está sentada ali, no banco dos réus, senhoras e senhores do júri, uma mulher cujo pai é um criminoso fugitivo, cujo tio se encontra numa prisão francesa, uma aventureira sem dinheiro, uma Jezebel que seduziu insidiosamente aquele pobre rapaz, menor de idade, levando-o ao casamento, e depois, senhoras e senhores do júri, com uma perfídia deliberada, seduziu-o a uma morte prematura...
Jamie sentou, mais pálido do que antes. As palavras de Hoag afloraram e sua mente.
— O que pretende fazer?
— Primeiro, tentarei mudar esta redação. Não creio que eles concordem, mas tentarei. Tem o testamento de Malcolm?
Jamie sacudiu a cabeça.
— Ele nunca me falou num testamento.
— Eu disse a ele que era importante fazer um testamento, quando me procurou pela primeira vez... isso é rotina. Tem certeza?
— Sei que não tenho nenhum testamento, não em nosso cofre.
Jamie franziu o rosto. Malcolm teria feito um testamento? Se eu estivesse para casar trataria de fazê-lo. Espere um pouco, fui noivo de Maureen por anos, e jamais cuidei disso. Por Deus, eu gostaria de saber como ela está, o que pensou ao receber minha carta.
— Ele nunca me mencionou um testamento. Falou alguma coisa a respeito com Angelique?
— Não. Essa foi minha primeira pergunta. Talvez ele tenha feito um testamento sem que vocês soubessem. Ele tinha um cofre particular ou algum lugar para guardar seus documentos pessoais?
— Não. Se tivesse, seria em Hong Kong. Mas há um pequeno cofre em seus aposentos.
— Vamos examiná-lo.
— Não podemos fazer isso.
As palavras saíram ríspidas e formais:
— A Sra. Angelique Struan era sua esposa legal, e agora é sua viúva, a herdeira imediata de todos os seus bens materiais, a menos que seu testamento enuncie o contrário. Se não há testamento, então ela herda tudo, depois da homologação pelo tribunal, e do pagamento dos honorários legais e impostos. Vamos dar uma olhada no cofre.
— Não podemos presu...
— Devemos resolver isso entre nós três, como amigos, ou providenciarei uma ordem judicial formal, através de Sir William, ainda hoje, para o seqüestro de tudo, de todos os seus documentos, de todos os documentos da Struan, em Iocoama e Hong Kong, para a busca de um testamento, a que a minha cliente tem direito. — Seu olhar era inflexível. — Desculpe, meu velho, mas tem de ser assim. Certo?
— Vamos perguntar a Angelique.
Inseguro, sabendo que nunca poderia permitir que alguém de fora examinasse os documentos e registros da Casa Nobre, Jamie seguiu Skye de volta à sala do
Angelique continuava sentada onde a haviam deixado. Impassível, ela escutou Skye.
— Não há necessidade de nos acompanhar, Sra. Struan. Pode ter certeza de que agirei em seu nome.
— Obrigada, mas eu gostaria de estar presente.
Eles seguiram-na pela escada imponente, a primeira vez para Skye, que tentou não se mostrar impressionado demais pelo lustre espetacular e os óleos valiosos. Jamie abriu a porta da suíte do
O pequeno cofre de ferro na parede ficava atrás de um quadro a óleo, outro Aristotle Quance. Skye sorriu. O quadro mostrava uma menina chinesa carregando no colo uma criança loura, de pele clara, com um rabicho, um menino, tendo a fundo uma paisagem de Hong Kong. Ele já ouvira falar do quadro, mas nunca o vira. Quance era o decano dos pintores que haviam feito a crônica de Macau e dos primeiros tempos de Hong Kong, um irlandês que ali vivera por muitos anos e morrera há poucos anos, em Macau, onde fora sepultado. Era também um voraz bêbado, jogador e libertino, mas velho amigo e devotado a Dirk Struan. O rumor era de que a moça era a famosa May-may, a amante chinesa de Dirk, a que morrera com ele no tufão de 1842, em seus braços, e a criança o primogénito dos dois.