Eles o fizeram e entregaram Ah Tok aos cuidados de Chen, que ainda se encontrava transtornado, em lágrimas. Saíram para a High Street, os dois aliviados por estarem outra vez ao ar livre, mas absortos em seus pensamentos. Skye planejava, analisava os atoleiros pela frente. Jamie sentia-se incapaz de planejar qualquer coisa, o cérebro consumido pela tragédia e preocupação com o futuro da Casa Nobre, sem saber por quê.
Seria por ela? — perguntou a si mesmo, alheio ao passeio, ao vento forte, as ondas quebrando na praia de seixos, ao cheiro de algas em decomposição. A tristeza lhe convém. Seria possível que...
Ela é uma mulher agora! É essa a diferença, possui uma profundidade e equilíbrio que não existiam antes. É uma mulher, não mais uma moça. É por causa da catástrofe ou porque deixou de ser virgem... a mudança mística que dizem que ocorre ou se supõe que acontece na transmutação? Ou as duas coisas, talvez com o dedo de Deus ajudando-a a se ajustar?
— Por Deus — disse ele, incapaz de se conter, pensando em voz alta — o que acontece se ela tiver um filho?
— Pelo bem dela, rezo para que isso aconteça — arrematou o advogado.
Assim que eles se retiraram, Angelique fechou os olhos, respirou fundo. Logo recuperou o controle, levantou-se, foi trancar a porta, e depois abriu a que dava para sua suíte. Sua cama estava feita, havia flores frescas num vaso, na penteadeira. Ela voltou à suíte de Malcolm, trancou sua porta, tornou a sentar na cadeira.
Só então olhou para a fotografia... a primeira dos pais de Malcolm que já vira. No verso, havia a data, 17 de outubro de 1861. No ano passado, Culum Struam parecia muito mais velho que sua idade, quarenta e dois anos, enquanto Tess não parecia velha nem jovem, os olhos claros fixados em Angelique, a linha fina dos lábios dominante.
Tess tinha trinta e sete anos. Como vou parecer quando chegar à sua idade, daqui a dezenove anos, mais do que o dobro da minha idade hoje? Terei a mesma expressão dura, que proclama um casamento sem amor, e opressivos fardos de família.— odiando seu pai e os irmãos, eles também a odiando, os dois lados tentando se arruinar mutuamente —, que no seu caso começaram de maneira tão romântica, fugindo para casar no mar, como nós fizemos... mas, por Deus, que diferença!
Ela olhou pela janela, para a baía e os navios, um vapor mercante deixando o porto... capitão e oficiais na ponte de comando, o navio de correspondência cercado por tênderes, o cúter da Struan junto ao
Angelique fechou os olhos, esfregou-os, tornou a olhar. Não havia equívoco. Durante o dia inteiro seus olhos haviam demonstrado inesperada e supreendente lucidez de visão. Percebera-o no momento em que despertara naquela manhã, todos os detalhes do quarto em foco, as cortinas, as flores mortas no vaso, moscas circulando, quatro moscas. Segundo depois, ouvira uma batida na porta, e a voz de Ah Soh:
—
Sua audição também parecia mais intensa, o som dos passos leves de Ah Soh arrancando-a do sono.
Ainda mais estranho era a lucidez de sua mente, todo o peso parecia ter se dissolvido, não a tristeza, a maneira objetiva com que considerava problema após problema, sem consternação, sem jamais misturá-los, sugerindo soluções, sem o medo habitual, nem mesmo um pouco. A preocupação, sim, mas isso era apenas sensatez, mas não mais o pânico nauseante, a indecisão.
Podia agora recordar aquele dia e aquela noite em todos os detalhes, sem uma pressão opressiva, inumana e insensata. Tornei-me insensível? Para sempre? É correto o que o Dr. Hoag disse esta manhã?
— Não se preocupe, você está curada de qualquer problema. Desde que possa chorar de vez em quando, e não ter medo de voltar no tempo, se é isso o que sua mente deseja, então sua vida correrá bem, melhor a cada dia. Tem juventude e saúde, a vida se estende à sua frente...