Antes de deixar Raiko e Meikin, ele ressaltara a necessidade urgente de saber tudo o que elas sabiam, ou pudessem descobrir, o mais depressa possível. Sua raiva começou a aumentar, não apenas porque as duas mulheres haviam fingido que não sabiam de nada, por mais que as adulasse, muito embora tivesse certeza de que elas estavam a par de alguma coisa, mas também porque seus preciosos oban de ouro se encontravam na manga daquele ganancioso samurai, para pagamento a um ganancioso gai-jin, mesmo que os honorários fossem bem merecidos. E onde vão terminar todos os meus adoráveis oban? Com toda certeza, na ravina de ouro de alguma prostituta.

— Muito obrigado, Otami-sama — disse o shoya, untuoso, enquanto Hiraga se retirava.

Ele manteve a cabeça no tatame para esconder o rilhar dos poucos dentes quebrados restantes, querendo humilhar Hiraga, fazê-lo suar, contando tudo, sem o menor remorso: Ah, sinto muito, sua falecida prostituta Koiko estava implicada na conspiração, assim como sua assassina treinada e ex-futura esposa, Sumomo, que também teve a cabeça cortada, e sua partidária dos shishi, Meikin, mama-san dos homens mais importantes de Iedo — até mesmo líderes da Gyokoyama — não continuará neste mundo por muito mais tempo, pois presumimos que Yoshi também sabe de tudo a seu respeito.

E apesar de você ser o mais esperto entre todos os samurais que já conheci, também está condenado... e ainda assim meus ilustres superiores esperam que eu o trate como um tesouro nacional e o mantenha vivo. Oh ko!

Esta noite vou me embriagar, mas não antes de me dar os parabéns pela eminente formação da Ryoshi Joint-u Vem’shur Stoku Kompeni! Ah, uma idéia digna dos deuses!

Voltando para casa, Jamie McFay abriu a sobrecasaca, embora o ar da noite fosse frio. Sentia bastante calor. O conhecimento adquirido era substancial e sua concentração relegara todas as preocupações a segundo plano. Era tudo muito interessante, refletiu ele, mas nenhum daqueles dois tem a menor idéia dos custos iniciais da produção em massa. E, no entanto, a maneira como Nakama disse que a Gyokoyama podia comprar e vender Iedo, se assim quisesse, por um momento acreditei realmente nisso. O shoya entrará num empreendimento conjunto, uma joint venture, tenho certeza.

Seus passos eram rápidos e cumprimentava as pessoas por que passava na High Street. Subiu os degraus do prédio da Struan, entrando em seu domínio. É meu de novo, pensou, com orgulho. Talvez Tess mude de idéia agora... ela não é nenhuma tola e fiz um bom trabalho.

Vargas estava esperando.

— Boa noite, Vargas. Hora de fechar?

— Isso mesmo. Antes, senhor, queria lhe entregar estas cartas que chegaram pela correspondência de ontem e que, de alguma forma, foram parar na minha bandeja de entrada.

As duas cartas tinham a indicação de Pessoal e Confidencial, e eram endereçadas a ele. A primeira tinha a letra de Tess Struan. Jamie sentiu um frio no estômago. A outra era de Maureen Ross, sua ex-noiva. Sua apreensão dobrou.

— Obrigado — murmurou ele.

Apesar de sua determinação em esperar, não pôde se conter e abriu a carta de Tess. Esta é para lhe comunicar formalmente que o Sr. Albert MacStruan foi transferido de Xangai e chegará pelo vapor Wayfong, no dia 17. Por favor, ponha-o a par de todas as operações japonesas. Na dependência de seu não-atendimento às cartas anteriores, ele assume o controle ao final de dezembro.

Sua dispensa da Casa Nobre, agora que fora consumada, não o enfureceu como esperava. Na verdade, sentiu-se aliviado. Estranho, há poucos momentos pensei que era meu... Ele levantou os olhos para deparar com Vargas a observá-lo atentamente.

— O que mais, Vargas?

Jamie dobrou a carta, largou-a na mesa, junto com a outra.

— A Sra. Angelique está no gabinete do tai-pan. Perguntou se o senhor poderia ir vê-la por um momento.

— Qual é o problema agora?

— Nenhum, ao que eu saiba, senhor. A noite foi tranqüila. Chegou uma mensagem de sua Nemi, indagando se a visitaria mais tarde. Mais um outro assunto, o capitão Strongbow tornou a pedir suas ordens para zarpar. Eu lhe disse para ser paciente. Será na maré noturna?

— Acho que sim. Mande um aviso para Nemi: Talvez.

— Pois não, senhor. Então está decidido? O corpo do tai-pan seguira no Cloud? E a senhora também?

— Ou no clíper ou no navio de correspondência, um ou outro.

Jamie afastou-se pelo corredor, foi bater na porta. Angelique sentava na cadeira de Malcolm, que Jamie já começava a pensar como dela, lendo o Guardian, à luz de um lampião a óleo.

— Olá, Jamie.

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