Ficou transtornada, Otami-sama, como não podia deixar de ser.

— O que mais sabe, shoya?

— Já disse o que sei que pode afetá-lo e aos shishi.

— O que sabe sobre Katsumata e Takeda?

— A notícia, Sire, é de que eles ainda viajam para cá, assim como, supostamente, lorde Yoshi.

— Quando ele chega de volta? Mudou seus planos agora?

A mente de Hiraga era um turbilhão. Se Koiko morrera na luta, teria sido por acidente ou Yoshi descobrira que ela estendia seus tentáculos até nós, como Meikin?

— Não sei. Talvez em oito dias, Otami-sama.

O shoya percebeu a preocupação de Hiraga, e achou que era normal, pois era óbvio que ele corria um grande perigo... mas como é valioso! Concordo que ele é um tesouro nacional ou deveria ser. Empreendimento conjunto... uma idéia caída do céu! Meu filho trabalhará com esse gai-jin Jami, a partir de amanhã, para aprender as coisas dos bárbaros, depois não precisarei de Hiraga, que nada representa, a não ser problemas para mim, diretamente. Por mais que eu lamente, ele é um homem condenado. Como todos nós, se não tomarmos cuidado.

— Otami-sama, há muitos movimentos de tropas ao nosso redor.

— Hem? Que tipo de movimentos?

— O Bakufu reforçou as três estações de posta mais próximas de nós. E há ainda quinhentos samurais vigiando a estrada, ao norte e ao sul daqui. — Uma gota de suor escorreu pela face do shoya. — Estamos numa emboscada do tairo Anjo?

Hiraga praguejou; também podia sentir a crescente pressão.

— O que soube, shoya? Ele está planejando nos atacar aqui?

— Eu bem que gostaria de saber, Otami-sama. Talvez falar a Taira sobre as tropas possa ajudar a descobrir qual é o plano dos gai-jin.

— Eles vão bombardear Iedo, qualquer idiota sabe disso. — Hiraga sentiu intensa angústia ao pensamento da inevitável vitória dos gai-jin, embora isso fosse servir a sonno-joi mais do que qualquer outra coisa. — Não há nada que o tairo possa fazer para evitar...

Seu coração saltou uma batida, ele parou de falar.

— Exceto o quê, Otami-sama?

— Exceto a resposta da história, a solução habitual: um ataque de surpresa, súbito e brutal, para destruir a base da esquadra.

Hiraga espantou-se por ter partilhado seu pensamento tão francamente com uma pessoa inferior, embora o shoya fosse inteligente, um aliado valioso, e muito em breve um parceiro nos negócios.

E ele pensou, em meio às vibrações da cabeça latejando, há muita coisa que não compreendo, o mundo está virando pelo avesso, tudo é diferente, eu me tornei diferente, não sou mais samurai, não totalmente samurai. É culpa desses repulsivos gai-jin, com suas idéias sórdidas, gananciosas... e tentadoras. Eles devem ser expulsos — sonno-joi, sonno-joi, sonno-joi — mas ainda não. Antes, massu produk’shun e, primeiro, fabricar fuzis.

Shoya, mande espiões espreitarem, caso seja esse o plano de Anjo.

— Espiões, Otami-sama?

— Já é tempo de parar com os jogos, shoya. Está me entendendo? Nada mais de jogos!

— Obedeço em tudo, Otami-sama. Como sempre, como...

— Saiu-se muito bem esta noite, shoya. Assim que tiver mais notícias sobre Yoshi ou os shishi, mande me avisar, por favor.

Hiraga acrescentou o “por favor” como uma grande concessão.

— Tão depressa quanto uma ave marinha pescadora, Sire.

— Boa noite então... Ah, desculpe, já ia me esquecendo dos honorários do gai-jin. Ele me pediu para lembrar-lhe.

O shoya sentiu o estômago embrulhado. Tirou da manga uma pequena bolsa... teria sido uma grosseria a entrega direta a Jami-sama.

— Aqui tem o equivalente em oban de ouro a um koku e meio, Otami-sama, O resto dentro de dez dias.

Hiraga deu de ombros, guardou a bolsa em sua manga, como se fosse uma coisa irrelevante, mas se espantou com o peso e alegria que lhe proporcionou.

— Avisarei a ele e o trarei aqui dentro de três dias.

— Obrigado, Otami-sama. Esses movimentos de tropas me deixam muito preocupado. A guerra é iminente. Meus superiores dizem que se pudessem ter um aviso antecipado sobre os planos dos gai-jin... ficariam profundamente agradecidos por qualquer ajuda. Talvez o seu Taira-sama...

Esperançoso, o shoya deixou o nome ressoando no ar. Ele recebera hoje outra mensagem do escritório central em Osaca, mais urgente do que a anterior. Como se eu não soubesse ler?, pensou o shoya, irritado, como se fosse negligente e desleal. Faço tudo o que posso. O problema é daquelas mama-sans desgraçadas. Dois dias, e ainda não tive nenhuma notícia delas!

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