— Boa noite. Decidi acompanhá-la no navio de correspondência. — Ele fez um esforço para não parecer muito brusco. — É obrigação minha explicar tudo a Tess Struan. — Tendo falado, Jamie sentiu-se melhor, e acrescentou: — É meu dever e acho que Mal... acho que ele gostaria que eu fizesse isso e a poupasse um pouco.

— Sei disso. — Angelique exibiu um doce sorriso. — Tenho certeza de que ele gostaria mesmo. Feche a porta, Jamie, e sente-se por um momento.

Depois que ele obedeceu, Angelique baixou a voz, e relatou o plano de Hoag.

— Pode levar o cúter até Kanagawa amanhã, com o resto de nós, ao final da tarde?

Ele a fitava atordoado. Fora apanhado de surpresa.

— Você está louca. Esse plano é absurdo.

— Não é, não. O Dr. Hoag acha...

— Ele também enlouqueceu... nunca escapariam impunes.

— Por quê? — indagou ela, calmamente.

— Por cinqüenta razões... tantas razões que nem vou mencionar nenhuma. Toda a idéia é ridícula, insana, Willie vai prender todo mundo.

— O Sr. Skye diz que não há nenhuma lei contra o que faríamos. O sepultamento seria legal, ele garante.

— O Sr. Sabe-Tudo diz isso, hem? E o que mais Heavenly vai fazer... levantar a gola e oficiar o serviço religioso?

— O Sr. Skye acha que podemos persuadir o reverendo Tweet a fazer isso — disse Angelique, como se ele fosse uma criança num acesso de raiva.

Jamie ergueu as mãos.

— Vocês dois estão loucos, e Hoag é um diabo, perdeu o juízo ao sugerir isso. Partiremos no navio de correspondência, você, eu e ele.

Ele encaminhou-se para a porta.

— Jamie, você pode manobrar o cúter sozinho ou precisaremos de uma tripulação?

Ele virou-se, espantado. Angelique sorriu, determinada, mas insinuante.

— Precisaríamos de uma tripulação?

— Dois homens no mínimo. O contramestre e o engenheiro, pelo menos.

— Obrigada. Se você não quiser ajudar, posso pedir ao contramestre?

— Parece que não consegui fazê-la entender. A idéia é temerária, absolutamente temerária.

Angelique acenou com a cabeça, tristemente.

— É bem provável que você esteja certo, e não consigamos nada, mas vou tentar e tentar de novo. Parece que também não consigo fazer com que você entenda, meu querido Jamie. Prometi amar, respeitar e obedecer a meu marido e seu amigo, pois ele era seu amigo, e sinto que não me separei dele, ainda não nem você. Tess Struan não vai cumprir o desejo dele, não é mesmo?

Durante todo o tempo, Jamie estivera fitando-a, sem vê-la, e ao mesmo tempo vendo cada detalhe, recordando todos os anos de Tess Struan, e o que ela e Culum haviam significado para ele, o que Malcolm significara, o que Dirk Struam significara, o que a Casa Nobre significara. E tudo acabara, tudo definhara, tudo se desperdiçara, nossa Casa Nobre não é mais nobre, não é mais a primeira na Ásia. Isto é, nem tudo desperdiçado, nem tudo acabado, mas a glória passou, meu amigo morreu, e isso é um fato. Eu era seu amigo, mas ele era meu? Deus Lá em Cima, o que não fazemos em nome da amizade!

— Tess não o sepultaria como ele queria. Suponho que é o mínimo que um amigo pode fazer. Providenciarei o cúter.

Jamie saiu. No silêncio cada vez mais denso da sala, Angelique suspirou, pegou o jornal e recomeçou a ler.

Naquela noite, quando o Dr. Hoag chegou à legação em Kanagawa, parte do templo budista, foi recebido por Towery, sargento no comando, elegante em seu uniforme da guarda, túnica escarlate, calça branca, botinas pretas.

— Não o esperava até de manhã, doutor.

— Precisava verificar se estava tudo pronto. Queremos partir cedo.

Escoltando-o até a parte do templo usada como necrotério, Towery riu.

— Se o deixou pronto, doutor, ele continua pronto, porque não saiu para dar uma voltinha.

Ele abriu a porta. A sala era grande, o chão sujo, com um acesso ao jardim por portas de veneziana. Towery farejou o ar.

— Eles ainda não fedem. Nunca gostei de cadáveres. Quer uma ajuda?

— Não, obrigado.

Os dois caixões estavam sobre cavaletes, as tampas ao lado, havia outros, encostados na parede. Os corpos se encontravam estendidos em mesas de mármore, cobertos por lençóis. Havia enormes barricas no outro lado, contendo gelo. A água vazava das barricas para o chão de terra batida.

— O que me diz do nativo? Por quanto tempo vamos mantê-lo aqui?

— Até amanhã.

Hoag sentiu uma súbita vertigem, lembrando que, pelo costume, o corpo seria reivindicado para cremação, segundo o ritual xintoísta, mas agora não haveria corpo...

— Qual é o problema, doutor?

— Nada, apenas um... obrigado, Sargento.

Seu coração recomeçou a bater ao recordar que o homem era coreano, um dos pescadores de um barco naufragado, levando uma existência patética, sem meios de voltar para sua terra, indesejado e desprezado pelos locais. Babcott concordara cremar o corpo no crematório budista.

— Na verdade, sargento, poderia me dar uma ajuda.

O cadáver de Malcolm fora limpado e vestido, depois da necropsia, pelos assistentes japoneses. Com a ajuda do sargento, que pegou os pés, eles o puseram no caixão.

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