— É bem provável. — Pallidar tossiu, tomou outro gole do xarope. — Isto é horrível, já me sinto pior. Vou recomendar a retirada de todo o pessoal daqui por algum tempo.

Hoag assoviou.

— Não gostaríamos de fechar a clínica.

— E eu não gostaria de vê-los mortos sem um caixão. Esses desgraçados adoram ataques de surpresa. Como o que aconteceu com o pobre Malcolm. Alguém terá de pagar por ele.

Hoag balançou a cabeça.

— Concordo.

Ele olhou na direção de Iocoama, os campos planos e desinteressantes no inverno — detesto o frio, sempre detestei, e sempre vou detestar. Seus olhos o levaram até o Prancing Cloud, o navio de correspondência a vapor, os navios mercantes, navios de guerra, tênderes, todos movimentados, preparando-se para a tempestade iminente, ou preparando-se para zarpar. Os navios de guerra tinham filetes de fumaça saindo pela chaminé — ordens do comando da esquadra, bem divuladas, para que o Bakufu e seus espiões soubessem que todos os navios podiam zarpar em condições de combate no prazo de uma hora.

Era uma estupidez, toda aquela perspectiva de matança, mas também o que podemos fazer? Os responsáveis devem pagar. Depois ele avistou a fumaça do cúter a vapor da Struan, avançando pelas ondas, os borrifos levantados pela proa molhando o vidro da ponte de comando e a cabine principal. Sua ansiedade atingiu o ponto máximo.

— Settry, não acha...

Ele suspendeu a súplica fervorosa, compreendendo de repente que mesmo que fosse impossível o sepultamento naquela noite, com um pouco de sorte ainda poderia cumprir a primeira parte do plano, e despachar o caixão errado para o Prancing Cloud.

Sou o único que sabe que caixão é de quem, com exceção talvez do sargento e tenho a impressão de que ele não vai perceber a diferença. Ninguém pode, à menos que um caixão seja aberto.

— Não acha que a vida em Iocoama é mais esquisita do que em outros lugares, já que vivemos num barril de pólvora?

— É a mesma coisa por toda parte, exatamente a mesma coisa — disse Pallidar, pensativo, observando-o.

IOCOAMA

Jamie, Angelique e Skye se agrupavam diante da janela grande no escritório do tai-pan. A chuva batia no vidro. Era quase meio-dia.

— Esta noite será perigoso demais.

— Quer dizer que teremos uma tempestade, Jamie?

— Isso mesmo, Angelique. O suficiente para nos deter.

— O Cloud ainda partirá esta noite, conforme o planejado?

— Claro. Nenhuma tempestade pode detê-lo aqui. O cúter já seguiu para Kanagawa, a fim de buscar o outro caixão. Ainda quer que seja embarcado no Cloud, e não no navio de correspondência?

— A ordem é de Sir William, não minha — disse ela, a voz firme. — Ele quer despachar meu marido contra os desejos dele e os meus, diz que deve ir o mais depressa possível, e assim tem de ser pelo clíper. E um caixão partirá como ele quer. Jamie, nosso ardil... acho que nosso ardil é justo. Quanto à tempestade, será pequena. Se não pudermos sepultar meu marido esta noite, tentaremos amanha. Ou no dia seguinte.

— O navio de correspondência partirá amanhã, por volta de meio-dia.

— Não pode retardar um pouco?

— Acho que sim. Pelo menos tentarei. — Jamie pensou por um momento — Falarei com o capitão. O que mais?

Angelique sorriu, triste. _

— Primeiro, temos de verificar se o Dr. Hoag foi bem-sucedido. Se não talvez eu deva seguir no clíper, no final das contas.

— É mais do que provável que Hoag volte com o cúter, então poderemos decidir. — Jamie fez uma pausa e acrescentou, sem acreditar: — De alguma forma, tudo acabará dando certo. Não se preocupe.

— O que acha de pedir a Edward Gornt para se juntar a nós? — indagou Angelique.

— Não — respondeu Jamie. — Nós três somos suficientes, junto com Hoag. Arrumei lugares no navio de correspondência para Hoag, você e eu.

Skye interveio:

— Angelique, é muito mais sensato para você permanecer aqui. Todos aqui sabem que Wee Willie tomou a decisão contra os seus desejos e isso alivia um pouco a pressão sobre você.

— Se não pudermos sepultar Malcolm, então eu irei. Não posso deixar de estar presente em seu funeral. — Ela suspirou. — Precisamos ter um capitão em nossa empreitada. Jamie, deve ser você.

— Concordo — declarou Skye. — Enquanto isso, esperamos por Hoag.

Jamie fez menção de falar, mudou de idéia, acenou com a cabeça, e foi para sua sala. Havia uma pilha grande de correspondência à espera de ação. Começou a despachá-la, trabalhando com diligência, mas sua concentração era perturbada pela gaveta. Fora ali que guardara a carta de Maureen. Por fim, largou a pena, pegou a carta e releu-a. Não havia necessidade, pois já a lera vinte vezes antes.

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