A parte fundamental era a seguinte: Como não houve resposta aos meus fervorosos pedidos e orações para que você voltasse, e retomasse uma vida normal em casa, decidi depositar minha confiança no Criador, e me arriscar em uma viagem a Hong Kong, ou até o Japão, onde quer que você esteja. Meu amado pai nos adiantou o dinheiro, que tomou emprestaao contra uma hipoteca de nossa casa em Glasgow — por favor, deixe uma mensagem para mim com a Cook‘s, em Hong Kong, pois parto amanhã, na segunda classe, no Eastern Mail, da Cunard...

A data era de dois meses e meio atrás.

Jamie soltou um grunhido. Ela estará em Hong Kong a qualquer dia agora. Minha carta chegou tarde demais. O que vou fazer agora? Sorrir? Esconder-me? Fugir para Macau, como o velho Aristotle Quance? De jeito nenhum. É a minha vida, e não posso de jeito nenhum sustentar uma esposa, não quero uma esposa... mas não posso escrever a mesma carta de novo, e enviá-la para Hong Kong. Terei...

Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.

— O que é? — berrou ele.

Hesitante, Vargas esticou a cabeça pela porta.

— Posso lhe falar por um momento, senhor?

— Claro. O que é?

Vargas informou, com uma repulsa evidente:

Há um homem aqui que deseja vê-lo, um certo Sr. Corniman... ou algo parecido.

O nome nada significava para Jamie. Vargas entreabriu a porta. O homem era baixo, parecia um furão, vestia-se de maneira estranha, parte em roupas europeias, parte japonesas. Camisa, calça e um casaco grosso, rosto raspado, cabelos limpos amarrados num rabo-de-cavalo, uma faca no cinto, botinas bastante gastas. Jamie não o reconheceu, mas aqui os estranhos não eram muitas vezes o que pareciam. Num súbito impulso, ele disse:

— Entre e sente, por favor. — Depois, ele recordou o navio de correspondência. — Vargas, peça ao capitão Biddy para me procurar, está bem? Ele deve estar no clube. Sente-se, Sr. Corniman... é esse o seu nome?

— Está grogue, companheiro?

— Quem é você e o que quer?

— Johnny Cornishman, lembra? Estive aqui com você e o tai-pan, eu e meu companheiro, Charlie Yank. Somos garimpeiros, lembra?

— Garimpeiros? Ah, sim, lembro dos dois agora.

O homem estava limpo e arrumado, quando antes era um vagabundo cabeludo, sujo e fedorento. Os olhinhos malignos e furtivos não haviam mudado.

— Fizemos um acordo, mas vocês preferiram acertar tudo com a Brock, nos traindo.

— É verdade, foi o que fizemos. Mas somos homens de negócios. Norbert ofereceu mais dinheiro, não é? Mas esqueça, ele está morto. Primeiro, tem um trago? Conversamos em seguida.

Jamie não deixou transparecer seu interesse. Um homem como aquele não o procuraria sem ter alguma coisa para negociar. Ele abriu o armário, serviu meio copo de rum.

— Descobriram alguma coisa?

O homenzinho tomou a metade do rum, engasgou, exibiu as gengivas, desdentadas, a não ser por dois dentes marrons e tortos.

— Rum é melhor do que saquê, mas não importa, porque as tais gueixas compensaram a falta de um trago de verdade. — Ele arrotou, sorriu. — Desde que você vomite. Jesus, como elas são esquisitas com água e limpeza, mais do que na nossa Yoshiwara. Mas depois que você está limpo, elas sacodem o rabo até a chegada ao reino dos céus!

Ele caiu na gargalhada de sua própria piada e depois acrescentou, a voz mais dura:

— Temos o carvão de melhor qualidade para vapor, companheiro, o suficiente para abastecer toda a porra da sua frota. Pela metade do preço de Hong Kong, na tonelada.

— Onde? Entregue onde? — indagou Jamie, animando-se. — O carvão para as máquinas a vapor era extremamente valioso, mas escasso, ainda mais para frota. Um fornecedor local seria uma dádiva divina, além de uma constante fonte de receita. Mesmo ao dobro do preço de Hong Kong ele poderia vender tudo que obtivesse, e ainda mais pela metade. — Entregue onde?

— Aqui mesmo, em Yokopoko. Mas seis pence por tonelada você deposita no banco em nome de Johnny Cornishman. — Ele tomou o resto do rum. — Tem de pagar em mex de ouro ou prata, e fará o pagamento a este sujeito.

O garimpeiro entregou um pedaço de papel. A escrita péssima dizia: Aldeia Iocoama, Shoya Ryoshi, mercador da Gyokoyama.

— Esse sujeito sabe o que fazer, já conhece tudo. Sabe quem é ele?

— Sei, sim. É o chefe da aldeia.

— Ainda bem. Meu chefe disse que você devia conhecê-lo.

— Quem é o seu chefe?

Cornishman sorriu.

— Lorde Mandachuva em pessoa. Você não precisa de nomes. E não vamos perder tempo. O negócio está fechado, sim ou não?

Depois de um momento, Jamie perguntou:

— Onde fica a mina?

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