— Fui eu quem descobriu, companheiro, não você. — O homenzinho riu, impertinente. — Fica perto, mas em terras inimigas. Escute, o primeiro veio que encontrei era numa montanha de carvão aqui perto, com mil desses amarelos para escavar, o suficiente para vinte frotas, durante vinte anos.

— E por que me procurou? Por que me pede para fazer o negócio com você?

— Porque Norbert morreu e porque você é quem manda aqui, agora que o tai-pan morreu. As coisas aqui por Yokopoko andam meio perigosas, hem? — Cornishman estendeu o copo. — Eu gostaria de tomar mais um trago, se não se incomoda, mister todo-poderoso da Struan.

Jamie tornou a servi-lo e voltou à cadeira. Cornishman notou que a dose era pela metade e resmungou:

— Só isto?

— Pagaremos um quinto do preço de Hong Kong, menos as taxas, o carvão entregue aqui, a primeira entrega dentro de trinta dias. Nenhum acordo por fora.

Os olhos do homenzinho esquadrinharam a sala, como os de um rato.

— Qualquer taxa você é quem paga, companheiro. E meu acordo por fora continua. Vamos fazer uma coisa: depois de amanhã, você me manda uma barcaça para as proximidades de Iedo, o lugar que eu indicar. Depois de amanhã. Vamos encher a porra da barcaça, você paga apenas um quinto, traz aqui para Yoko, paga o resto a esse sujeito, o que está aí no papel. Seis pence por tonelada no banco em meu nome, Johnny Cornishman. Não podia ser mais justo, hem? Recebe o carvão antes de pagar, e pela metade do preço em Hong Kong.

— Um quinto do preço total de Hong Kong.

O rosto do homenzinho se contorceu em raiva.

— Pela metade do preço de Hong Kong você já estará tendo um tremendo lucro, pelo amor de Deus! E o carvão aqui não é como a porra do carvão de lá. Poupa o custo do transporte, o seguro e só Deus sabe o que mais... não somos uns merdas, isso é um negócio respeitável!

Jamie riu.

— Já sei o que vamos fazer: na primeira barcaça, pago um terço do preço de Hong Kong. Se a qualidade for mesmo o que você diz, e garantir a entrega de uma barcaça por semana, ou qualquer coisa parecida que conseguir, aumentarei ao longo do ano para a metade do preço de Hong Kong, menos quinze por cento. Três pence por tonelada para você por fora. E o que me diz de seu sócio... como é mesmo o nome dele? Charles Yank?

— Seis pence ou nada. — Outra vez os olhos correram pela sala e voltaram a se fixar em Jamie, faiscando. — Ele está morto, como seu tai-pan, mas não morreu como aquele sujeito de sorte.

— É melhor tomar cuidado com o que diz sobre o nosso tai-pan.

— Não enche, companheiro. Não houve desrespeito. Todos nós gostaríamos de ir ao encontro do sujeito lá em cima com uma xoxota na ponta do nosso pau — Ele terminou de tomar o rum e levantou-se. — Daqui a dois dias, ao meio-dia Pegue o carvão aqui.

Ele estendeu um pequeno mapa. O X era na costa, alguns quilômetros ao norte de Kanagawa, ao sul de Iedo.

— Leve seus tênderes e a gente entra com a mão-de-obra.

— Não pode ser daqui a dois dias, pois cai num domingo. Vamos passar para a segunda-feira.

— Está certo. O dia do Senhor é o dia do Senhor. Três dias.

Jamie estudou o mapa. Uma barcaça de carvão desprotegida, com tênderes e tripulantes, podia ser um alvo tentador.

— Como a barcaça poderia ser naval e o carvão para a marinha, imagino que eles vão mandar uma fragata para montar guarda ao largo.

— Podem mandar toda a porra da esquadra, pelo que me importo. — Cornishman tentou parecer distinto. — Fiz uma grande descoberta, e estamos num negócio honesto.

— Fico contente em saber disso.

— Seis pence por tonelada ou nada feito!

— Quatro.

Cornishman cuspiu.

— Seis pence, por Deus! Conheço o valor do carvão, sei o quanto vale para a porra da esquadra, e o lucro que você pode conseguir. Talvez eu faça um acordo direto.

— Pode tentar — disse Jamie, arriscando. — Vamos fazer o seguinte: quatro pence nas primeiras dez barcaças, seis no resto.

O homenzinho ficou ainda mais furioso.

— Agora sei por que vocês são a porra da Casa Nobre! — Ele estendeu a mão calosa. — Sua palavra como um cavalheiro da Struan.

Trocaram um aperto de mão e depois Cornishman perguntou:

— Por acaso você tem algum mercúrio?

Isso despertou no mesmo instante o interesse de Jamie. O mercúrio era usado na extração de ouro.

— Tenho, sim. Quanto vai precisar?

— Não muito, para começar. Pode pôr na conta?

— Claro. Vai ficar no Yokohama Arms?

— Nada disso... não quero saber da cidade dos bêbados — respondeu Cornishman, desdenhoso. — Vou voltar com classe e você vai manter tudo em segredo, mnguém deve saber do nosso negócio... não quero nenhum filho da puta me atacando pelas costas para me roubar.

Ele começou a se retirar.

— Espere um pouco! Para onde vai? Como posso entrar em contato com você?

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