— Não. Já vi o suficiente e quero apenas buscar meus homens — informou Pallidar, para alívio dos dois. — Os escriturários e demais guardas podem sair de fános próximos dias. Até mais tarde.
Ele se afastou, tossindo. Mal deixara a distância de ouvir quando Hoag anunciou:
— Tudo transcorreu sem problemas, Jamie.
— Não agora, pelo amor de Deus!
Apesar do frio e umidade, Jamie suava bastante. Seguiu na frente pela High Street, parou ao abrigo de um bangalô, a salvo de outros ouvidos.
— O que aconteceu?
— Saiu tudo perfeito. Esta manhã, assim que o cúter chegou, nós fomos para o necrotério e...
— Nós quem?
— Settry, o sargento Towery, o contramestre, e dois tripulantes. Estendemos e prendemos a bandeira no caixão e eles o levaram para o cúter. O outro nos espera esta noite ou mais tarde... supostamente à espera para a cremação. — Hoag olhou para o mar, contra a chuva. — Não há a menor possibilidade esta noite, não é mesmo?
— Não. Mas acho que a tempestade já terá passado pela manhã.
— Ainda bem. — Hoag esfregou as mãos, contra o frio. — Tudo correu como um sonho. Só houve um problema, o nativo era pequeno, pele e ossos, por isso enchi o caixão de terra, para compensar a diferença no peso.
— Oh, Deus, eu tinha esquecido isso! Agiu muito bem.
— Fiz isso na noite passada, sem problemas... ninguém disse nada quando levaram o caixão para o cúter.
— Essa história toda é muito arriscada — murmurou Jamie, apreensivo. — Como vamos tirar o outro caixão da legação, com os funcionários e os guardas ainda ali?
— Já cuidei disso. — Hoag soltou uma risada. — Mandei nossos assistentes japoneses levarem o caixão para o barracão ao lado do nosso cais em Kanagawa. Não fica muito longe do crematório. Eles podem fazer isso sem despertar suspeitas. George me disse que põe os caixões e cadáveres ali, quando tem um excesso. É rotina.
— Ótimo! Fica muito longe do cais?
— Uns cinqüenta metros. Três homens podem carregar o caixão sem maiores dificuldades, e contamos com a ajuda do contramestre, não é?
— É, sim. Trabalhou muito bem. — Jamie olhou para a chuva, os olhos contraídos. — É uma pena que não possamos ir esta noite, e acabar logo com isso.
— Não tem importância. Amanhã tudo será resolvido.
Hoag sentia-se muito confiante e satisfeito com o elogio de Jamie. Não havia ecessidade de contar que fora visto, nem relatar a conversa com Pallidar. Esta manhã, ao comerem o desjejum juntos, ele dissera:
— Settry, sobre ontem à noite...
Pallidar não o deixara continuar:
— Esqueça, doutor, esqueça. É o melhor que pode fazer.
É mesmo melhor, refletiu ele, radiante, esquecer que jamais aconteceu.
— Vamos buscar Angelique? Como ela está?
Uma hora depois, todos se encontravam reunidos ao lado do cúter. A chuva mais forte, o vento aumentara. Os borrifos caíam sobre parte do cais. O cúter havia atracado, subia e descia com as ondas, os cabos rangendo. Angelique vestia-se de preto, uma capa preta sobre o vestido tingido de preto, chapéu preto, com um véu preto, e guarda-chuva. O guarda-chuva era azul celeste, um contraste surpreendente.
Era cercada por Jamie, Skye, Dmitri, Tyrer, Sir William e os outros ministros o capitão Strongbow, Gornt, Marlowe, Pallidar, Vargas, André, Seratard, o reverendo Tweet e muitos outros, todos agasalhados contra a chuva. O padre Leo postava-se mais atrás, desolado, as mãos enfiadas nas mangas, espiando por baixo do capuz. Jamie chamara Tweet para dizer uma bênção, explicando:
— Pareceria estranho se não fizéssemos isso, Angelique. Cuidarei para que não haja um serviço de verdade, nem discursos, o que não seria correto. Apenas uma bênção.
O tempo inclemente ajudou a tornar a bênção breve. Por uma vez, Tweet mostrou-se inesperadamente eloqüente. Quando ele terminou, todos olharam para Angelique, constrangidos. Lá em cima, as gaivotas gritavam, empurradas pelo vento, flutuando nas correntes de ar com a maior alegria. Sir William disse:
— Mais uma vez,
— Obrigada. — Ela empertigou-se, a chuva respingando do guarda-chuva. — Protesto por não me permitirem realizar o sepultamento de meu marido como ele e eu desejávamos.
— Seu protesto está registrado,
Sir William levantou o chapéu. Os outros desfilaram diante de Angelique, apresentando suas condolências, erguendo o chapéu ou batendo continência, os que vestiam uniforme. Strongbow bateu continência e embarcou no cúter, seguido por Pallidar. Marlowe parou diante de Angelique, ainda transtornado.
— Lamento profundamente — murmurou ele, bateu continência e se afastou. O padre Leo foi o último. Sombrio, fez o sinal-da-cruz, murmurou as palavras latinas, a maior parte do rosto oculta.
— Mas ele não é católico, padre — comentou Angelique, gentil.
— Creio que era um dos nossos, senhora, no fundo de seu coração, sotaque do padre Leo era acentuado pelo pesar, a noite passada em orações; indagando o que deveria fazer, se comparecia ou não. — Teria visto a luz e você o ajudaria. Tenho certeza.