— Aceito a honra, com a maior satisfação, e enquanto estiver organizando, tenho uma idéia: primeiro, sua saúde. Traga o doutor gai-jin até aqui, os nossos são inúteis e os furansu juram que o homem é um curador milagroso. Posso ir buscá-lo depressa, na maior discrição, amanhã, se permitir. Por que sofrer uma dor desnecessária? O doutor gai-jin vai curá-lo. Uns poucos dias extras não vão interferir com sua sábia estratégia de ataque. Até que esteja bom, para comandar, devemos manter os gai-jin desconcertados. Posso fazer isso, enquanto preparamos o ataque.

— Como?

— Ao me pôr na armadilha deles.

— O quê?

O ligeiro movimento de Anjo, para ver Yoshi melhor, levou-o a morder o lábio para prevenir um grito de dor.

— Assumirei o risco de me entregar nas garras deles, promovendo um encontro, com apenas um de dois guardas. No navio, descobri que eles estão prestes a nos atacar, de maneira insensata. Devemos evitar isso, a qualquer custo, tairo. Eles são tão perigosos quanto um cardume de tubarões famintos.

Isso foi dito com toda a sinceridade que Yoshi podia exibir. Ele acreditava no oposto: que os gai-jin se mostravam dispostos a negociar, a fazer concessões, sem querer a guerra, a menos que fossem pressionados longe demais... como a loucura de atacá-los.

— O risco será meu — acrescentou Yoshi, balançando a isca, com uma simulação de medo. — Se me mantiverem como refém, isso fará com que todos os daimios corram em seu apoio. Se não o fizerem, não importa, pois de qualquer forma você esquece que sou refém e os ataca... tudo isso, é claro, com a sua permissão, tairo.

O silêncio se tornou opressivo. Outro espasmo. Depois, Anjo balançou a cabeça em concordância e acenou com a mão, dispensando-o.

— Vá buscar o doutor gai-jin sem demora e prepare o ataque imediatamente.

Yoshi fez uma reverência, humilde, e fez um esforço, muito difícil, para não gritar de alegria.

52

KANAGAWA

Sexta-feira, 2 de janeiro:

Enquanto Yoshi se aproximava a cavalo da entrada da legação em Kanagawa, à frente da pequena procissão, Settry Pallidar, o oficial no comando da guarda de honra, gritou:

— Apresentar armas!

Ele fez a saudação com sua espada. Os soldados tiraram os fuzis do ombro, assumiram a posição de apresentar armas, e permaneceram imóveis: trinta guardas, trinta highlanders de kilt e sua tropa de dragões montados, todos garbosos.

Yoshi retribuiu à saudação com o chicote de montaria, ocultando sua ansiedade por ver tantos soldados inimigos, com tantos fuzis impecáveis. Nunca, em toda a sua vida, estivera tão desprotegido. Só Abeh e dois guardas, também montados, o acompanhavam. Mais atrás vinha um palafreneiro a pé e uma dúzia de carregadores suados e nervosos, com pesados fardos pendurados em varas. Os outros guardas esperavam na barricada.

Ele vestia-se todo de preto: armadura de bambu, elmo leve, túnica de ombros largos, duas espadas... até mesmo seu pônei era preto. Mas os arreios, rédeas e manta eram deliberadamente vermelhos, realçando o preto. Ao passar por Pallidar, cruzando os portões, Yoshi notou que os frios olhos azuis pareciam de peixe morto.

Nos degraus por cima do pátio de terra batida ele avistou Sir William, flanqueado por Seratard e André Poncin num lado, o almirante, o Dr. Babcott e Tyrer no outro... assim como ele pedira. Todos se vestiam com os melhores trajes, de cartola, casacos de lã contra a manhã úmida, o céu nublado. Yoshi correu os olhos por todos, detendo-se por um momento em Babcott, impressionado com sua enorme altura, depois parou o cavalo, fez uma saudação com o chicote. Todos fizeram uma reverência, também casual, menos o almirante, que bateu continência.

No mesmo instante, Sir William, com Tyrer logo atrás, desceu os degraus para cumprimentá-lo, sorrindo... ambos disfarçando sua surpresa pela guarda mínima. O palafreneiro se adiantou para segurar a cabeça do pônei. Yoshi desmontou pelo lado direito, como era costumeiro na China, e, portanto, ali também.

— Seja bem-vindo, lorde Yoshi, em nome de sua majestade britânica —disse Sir William.

Tyrer traduziu no mesmo instante.

— Obrigado. Espero não estar lhes causando qualquer problema — respondeu Yoshi, iniciando sua parte do ritual.

— Não, Sire, a honra é nossa. Sua presença é uma grande satisfação para nós. Yoshi notou a melhoria no sotaque e no vocabulário de Tyrer e se sentiu ainda mais determinado a neutralizar o traidor Hiraga, que usava ali o pseudônimo de Nakama, como Inejin descobrira.

— Por favor, lorde Yoshi, aceita um chá? — acrescentou Tyrer.

Os dois já haviam fechado os ouvidos às frases sem importância, concentrando-se um no outro, procurando indicações que pudessem ajudá-los.

— Ah, Serata-dono, é um prazer tornar a vê-lo tão cedo — disse Yoshi, jovial, embora se sentisse irritado por estar de pé, tendo de erguer os olhos para fitá-los, já que eram em geral uma cabeça mais altos, e isso o deixava com uma sensação de ser inferior, embora olhasse de cima para a maioria dos japoneses. — Obrigado.

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