Ainda não houve resposta. Hiraga olhou ao redor. Katsumata desaparecera O choque de Hiraga foi ostensivo. Os outros fregueses o fitavam em silêncio. Um grupo de samurais observava-o de um canto. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram. Ele jogou algumas moedas na mesa, a mão na pistola escondida, e voltou pelo caminho por que viera.
Naquela tarde, havia um ar de premonição por todo o castelo de Iedo. Yoshi seguia apressado o doutor chinês por um corredor, acompanhado por Abeh e quatro guardas samurais. O doutor, alto e muito magro, usava uma túnica comprida, os belos grisalhos presos num rabicho. Subiram uma escada, avançaram por outro nedor, até que o doutor parou. Guardas hostis postavam-se à frente, as mãos em suas espadas, todos fitando Yoshi e seus homens.
— Sinto muito, lorde Yoshi — disse o oficial —, mas as ordens do
— E minhas ordens foram para ir buscar lorde Yoshi — disse o doutor, o medo lhe proporcionando uma falsa coragem.
— Pode passar, lorde Yoshi — decidiu o oficial, com um ar sombrio. — Mas seus homens não podem.
Embora inferiorizados, Abeh e seus homens estenderam a mão para as espadas.
— Parem! — disse Yoshi, muito calmo. — Espere aqui, Abeh.
Abeh sentia a maior preocupação, a adrenalina aumentando, a par dos rumores no castelo de que seu líder estava prestes a ser preso, rumores que Yoshi desdenhara.
— Por favor, Sire, desculpe-me, mas pode ser uma armadilha, os samurais do outro lado se empertigaram ao insulto.
— Se for, pode matar todos estes homens — respondeu Yoshi, com uma risada.
Ninguém mais riu. Ele gesticulou para que o doutor seguisse adiante, tendo decidido que, se tentassem desarmá-lo, tratariam de lutar e morrer agora.
Deixaram-no passar, sem ser molestado. O doutor abriu a porta no outro lado, fez uma reverência para que Yoshi passasse. Yoshi não tinha a mão no punho da espada, mas se preparou para um assassino por trás da porta. Não havia nenhum. Apenas quatro guardas, em torno dos futons, no cômodo grande. Deitado ali, encolhido de dor, estava Anjo.
— E então, guardião do herdeiro — disse ele, a voz fraca, mas impregnada de veneno —, tem informações?
— Para seus ouvidos apenas.
— Espere lá fora, doutor, até eu chamá-lo.
O doutor fez uma reverência e se retirou, contente por sair. Aquele paciente era insuportável, ele o desprezava, e como morria lentamente, só lhe restando umas poucas semanas ou meses, não haveria honorários. Na China, era esse o costume, não havia honorários sem cura, e o mesmo acontecia aqui.
Os guardas não haviam se mexido. Nem o fariam. Os quatro eram guerreiros famosos e de absoluta lealdade. Yoshi perdeu um pouco de sua confiança. Ajoelhou-se, fez uma reverência polida. Naquela manhã, depois que Inejin se se tirara, ele mandara uma mensagem a Anjo, pedindo uma reunião urgente, para lhe transmitir informações importantes.
— E então, Yoshi-dono?
— Estive ontem num dos navios de guerra dos
— Eu já sabia. Acha que sou um tolo e não sei o que você anda fazendo. Disse que eram informações médicas.
— O doutor
— Não preciso de você para isso. — Em agonia, Anjo soergueu-se num cotovelo. — Por que se mostra tão solícito, quando me quer morto?
— Não morto, mas com boa saúde,
Yoshi fazia um esforço para se controlar, abominando aquele homem e aquele aposento, com seu fedor de morte, diarréia e vômito... e ao mesmo tempo receando ter calculado errado. Aquilo podia muito bem ser sua armadilha fatal, caso o homem doente desse a ordem.
— Por que ficar doente, se pode ser curado? Além disso, eu queria lhe dizer que descobri o plano de batalha dos
— Que plano, hem? Como conseguiu?
— Não importa, exceto que eu sei, e assim você também sabe agora. Yoshi relatou a substância do plano, com precisão, mas deixou de fora a parte sobre os dez dias de graça depois do ultimato.
— Então devemos partir! — A voz de Anjo se tornou mais estridente. Os guardas se agitaram, nervosos. — Os roju devem ir embora em segredo, imediatamente. Fixaremos residência em... Hodogaya. Assim que estivermos sãos e salvos, incendiaremos a colônia à noite, surpreendendo-os em suas camas. Que cães! Eles merecem uma morte infame, sem honra. Vamos queimá-los, matar todos que escaparem, e voltar para cá, depois que a esquadra bater em retirada. E na primavera estaremos preparados. Incendiaremos Iocoama amanhã. — Os olhos de Anjo faiscaram, um filete de saliva molhou seu queixo. — Você terá a honra de comandar o ataque. Organize-o, desfeche a ofensiva amanhã ou no dia seguinte.
No mesmo instante, Yoshi fez uma reverência em agradecimento.