Apesar do luto profundo, no dia de Natal ela concordara em participar do jantar que ele oferecera a Albert MacStruan, e que contara também com a presença de Sir William, Seratard, André e quase todos os outros ministros. Fora um discreto sucesso. Embora ela não exibisse sua jovialidade anterior, e pouco da sua personalidade antiga, ainda assim fora graciosa e doce, e todos comentaram que se tornara ainda mais bela em sua nova maturidade. Naquela noite haveria uma
Um hurra para o ano-novo, que será maravilhoso!
Apesar de seu bom humor, ele sentiu uma pontada de aflição. Os negócios andavam difíceis, a guerra civil grassando outra vez em torno de Xangai, a peste em Macau, a guerra civil americana cada vez pior, fome na Irlanda, rumores de fome aqui no Japão, distúrbios nas Ilhas Britânicas por causa do desemprego e dos diários nas fábricas. E há também Tess Struan...
Droga! Prometi a mim mesmo que não me preocuparia com ela a partir de 1o de janeiro de 1863! Nem com Maureen...
Para escapar à ansiedade, ele usou as esporas. No mesmo instante, Hiraga fez a mesma coisa, os dois bons cavaleiros. Era a primeira vez que Hiraga cavalga em muito tempo, a primeira oportunidade de se movimentar em relativa liberdade pela colônia. Ele seguiu por algum tempo emparelhado com Jamie e depois se adiantou. Muito em breve os dois galopavam na maior felicidade. E logo se descobriram sozinhos, os outros tendo se desviado para a pista de corrida. Diminuíram o ritmo, desfrutando o dia.
Podiam divisar à frente a sinuosa Tokaidô, interrompida aqui e ali por rios na cheia, os carregadores nos dois lados esperando pelas barcas que transportariam as mercadorias e pessoas sobre as águas. Hodogaya ficava para o sul. Suas barreiras estavam abertas. Nos bons tempos antigos, antes dos assassinatos durante a primavera e outono, os mercadores visitavam a aldeia em busca de saquê e cerveja, levando cestos de piquenique, rindo e flertando com as levas de criadas que procuravam atraí-los para seus bares e restaurantes. Não eram bem-vindos nos muitos bordéis.
— Ei, Nakama, onde vai se encontrar com seu primo? — perguntou Jamie. Ele parou o cavalo nos arredores da aldeia, não muito longe da barreira, mais do que consciente da hostilidade dos viajantes. Mas não se sentia preocupado. Estava armado, ostensivamente, com um revólver num coldre no ombro... e Hiraga não levava nenhuma arma ou, pelo menos, ele assim pensava.
— Eu procurar ele. Melhor ir sozinho outro lado barreira, Jami-sama. Hiraga experimentara intensa alegria ao receber a mensagem de Katsumata, ao mesmo tempo em que sentia profundas apreensões, pois era perigoso deixar a proteção de Sir William e Tyrer. Mas precisava descobrir notícias sobre Sumomo e os outros, saber o que acontecera de fato em Quioto e qual era o novo plano dos
— Sinto muito, Otami-sama, ainda não tenho notícias sobre Katsumata ou Takeda... nem sobre a moça Sumomo ou Koiko. Lorde Yoshi permanece no castelo de Iedo. No momento em que eu souber de alguma coisa...
Ainda com o rosto encoberto, Hiraga gesticulou para que Jamie seguisse na frente.
— Por favor. Depois eu descobrir bom lugar você esperar.
Os guardas na barreira observaram-nos desconfiados, fizeram uma reverência ligeira, aceitaram suas saudações. Hiraga estremeceu, vendo um cartaz muito parecido com ele afixado numa parede. Jamie não notou e Hiraga duvidava que ele — ou os outros — pudesse reconhecê-lo, com o bigode e o corte de cabelo europeu.
Hiraga parou na primeira estalagem. Usando um japonês precário e imitando a rispidez de outros mercadores, Hiraga foi se instalar a uma mesa no jardim, pediu chá, saquê e cerveja, alguns alimentos japoneses, dizendo à criada para providenciar que não o incomodassem, o que lhe valeria uma boa gorjeta. A criada manteve os olhos abaixados, mas Hiraga tinha certeza de que ela vira seus olhos, e sabia que se tratava de um japonês.
— Jami-sama, eu voltar poucos minutos — disse Hiraga.
— Não se demore muito, meu velho.
— Sim, Jami-sama.