Ontem, ao crepúsculo, ele passara pela barreira, arrogante, os documentos falsos perfeitos. Estava um dia atrasado, não era esperado, mas Raiko, no mesmo instante, lhe dera o melhor bangalô disponível. Ao contrário dos outros shishi, o único entre eles, sua família era rica e ele sempre andava com numerosos oban de ouro.

— Uma igreja — repetiu ele, apreciando cada vez mais a idéia. — Eu não teria pensado nisso... deixaríamos uma mensagem, alegando que fora feito por ordem de Yoshi, o tairo Anjo e os roju, como uma advertência para que deixem nossas praias. Precisamos muito de vingança contra Yoshi.

Um pouco de espuma se concentrou nos cantos de sua boa, que ele logo limpou, irritado.

— Yoshi é o arqui-inimigo. Um de nós tem de ir contra ele. Yoshi matou muitos dos nossos guerreiros em Quioto, atirou em alguns pessoalmente. Se eu pudesse emboscá-lo, não hesitaria. Isso também, mais tarde. Portanto, a igreja será incendiada. Ótimo.

Hiraga sentia-se apreensivo, achando Katsumata estranho, diferente. Agora se mostrava impaciente, agindo como se fosse um daimio, e Hiraga um goshi a quem podia dar ordens. Sou o líder dos shishi de Choshu, pensou, irritado ainda mais, não um discípulo sob as ordens de um sensei de Satsuma, por mais renomado que ele seja.

— Isso converteria toda Iocoama num ninho de vespas. Eu teria de ir embora, o que seria péssimo no momento, já que o meu trabalho é muito importante para a nossa causa. A situação aqui é muito delicada, sensei. Concordo que devemos planejar... por exemplo, para onde escaparemos, se precisarmos escapar?

— Iedo. — Katsumata fitou-o nos olhos. — O que é mais importante, sonno-joi ou seu refúgio seguro entre os inimigos gai-jin?

Sonno-joi — murmurou ele, acreditando. — Mas é importante aprendermos o que eles sabem. Conhecer seu inimigo como...

— Não preciso de citações, Hiraga, mas de ação. Estamos perdendo a luta, Yoshi está vencendo. Só temos uma solução: lançar esses gai-jin em ação violenta contra o Bakufu e o xogunato. Isso avançará sonno-joi como nada antes e tem precedência sobre tudo. Precisamos desesperadamente disso, pois assim recuperaremos apoios... e a honra... guerreiros virão em levas para o nosso estandarte, enquanto a vanguarda dos shishi se reagrupa, aqui e em Quioto. Pedirei reforços de Satsuma e Choshu e tornaremos a atacar os portões, para libertar o imperador. E desta vez teremos êxito, porque Ogama, Yoshi e o sórdido xogunato estarão distraídos, enfrentando os gai-jin hostis. Assim que dominarmos os portões, sonno-joi será um fato.

Não havia como duvidar de sua confiança.

— E o que acontecerá se provocarmos os gai-jin, sensei!

— Eles bombardeiam Iedo, o xogunato retalia, atacando Iocoama... e ambos perdem.

— Enquanto isso, todos os daimios correm a apoiar o xogunato, quando os gai-jin voltarem, o que é inevitável.

— Eles não voltariam antes do quarto ou quinto mês, se é que voltarão. Antes disso, teremos os portões e, por sugestão nossa, o imperador terá o maior prazer em entregar o culpado aos gai-jin, Yoshi ou seu chefe, Nobusada, Anjo, e quaisquer outros líderes de que eles precisarem para saciar a sede de vingança. E também por sugestão nossa, o filho do céu concordará em lhes permitir o comércio, sem mais guerra, mas apenas através de Deshima, na enseada de Nagasáqui, como ele fizeram por séculos. — A certeza de Katsumata era total. — É isso o que vai acontecer. Primeiro, a igreja... e que tal um navio?

Hiraga, surpreso, murmurou:

— Como assim?

Sua mente transbordava de argumentos contra as suposições de Katsumata convencido de que não aconteceria assim, ao mesmo tempo em que tentava encontrar um meio de desviá-lo, fazê-lo continuar a viagem até Iedo e retornar dentro de um ou dois meses... as coisas iam muito bem aqui, com Taira e Sir Wrum, Jami-sama e o shoya, e ele não queria arriscar tudo isso. Haveria bastante tempo para enfurecer os gai-jin mais tarde, com a igreja, quando um refúgio se...

— Afundar um navio de guerra os inflamaria, não é?

Hiraga piscou os olhos, aturdido.

— Como... como nenhuma outra coisa.

— Usamos a igreja como uma manobra diversionária, enquanto afundamos um navio, o maior de todos.

Atordoado, Hiraga observou Katsumata abrir uma mochila. Havia quatro tubos de metal, presos com um fio. E estopins.

— Estes tubos contêm explosivos, pólvora de canhão. Um deles, jogado por uma vigia de bombordo ou preso no casco do navio, abriria um rombo; dois seriam um golpe fatal.

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