— É? — Hiraga olhou através da baía. A paisagem marinha era invernal. Mal dava para avistar Kanagawa. Uma fragata, que ele reconheceu como a Pearl, navegava lentamente ao largo, contra o vento, firme e mortífera. No estreito, a nave capitânia, com seus quarenta canhões de sessenta libras, se encontrava ancorada, a favor do vento. — Eu voltar mais tarde.

Desconsolado, ele se encaminhou para a aldeia, a fim de comprar um escaler. Por mais que desaprovasse, era um shishi acima de tudo.

No início daquela tarde, na sala dos oficiais da Pearl, Seratard bateu seu copo no de Sir William, ambos se congratulando pela reunião.

— Um passo à frente maravilhoso, Henri, meu velho — disse Sir William, jovial. Ele pegou a garrafa, tornou a verificar o rótulo. — Nada mal para um 48. E excelente repasto também.

Na mesa, havia sobras do almoço providenciado pelo chefde Seratard: tortas de pombo frias, quiche, migalhas de pão francês e umas poucas fatias de um Brie devorado, trazido pelo último navio mercante que chegara de Xangai.

— Ainda não posso acreditar que Yoshi tenha oferecido tudo o que ofereceu, Henri.

— Concordo. E maravilhoso é a palavra certa. Nós treinaremos a marinha, vocês cuidam do exército, nós nos encarregamos do sistema bancário e alfândega.

— Sonhador! — interrompeu-o Sir William, com uma risada. — Mas não vamos discutir sobre a divisão. Londres e Paris cuidarão disso. — Ele arrotou, contente, antes de acrescentar: — Tudo se reduzirá ao “quanto”, no final das contas, pois é óbvio que teremos de emprestar os recursos para que comprem nossos navios, fábricas, ou qualquer outra coisa... por mais que eles digam que pagarão.

— É verdade, mas haverá as salvaguardas habituais, receitas de alfândega etc.

Os dois riram.

— Haverá mais do que o suficiente para nossos dois países — comentou Sir William, ainda não acreditando de todo. — Mas quero que me faça um favor, Henri: não provoque o almirante. Já temos problemas suficientes sem isso.

— Está bem, mas ele é tão... ora, não importa. O que me diz de Nakama? Espantoso! Acho que você teve sorte por ele não matá-lo numa noite qualquer, já que é o inimigo número um. O que deu em você para assumir tamanho risco?

— Ele não estava armado e ajudava Phillip a aprender japonês. — Até onde Sir William podia determinar, apenas os quatro, Tyrer, McFay, Babcott e ele próprio, sabiam que o homem falava inglês e não havia razão para partilhar esse segredo. — Além disso, era bem vigiado.

Sir William arrematou num tom de indiferença, embora sentisse uma pontada de angústia ao pensar no perigo que haviam corrido.

— O que fará com ele?

— O que eu disse a Yoshi.

Todos haviam ficado chocados com as revelações de Yoshi — Sir William quase tanto quanto Tyrer —, em particular ao saberem que Nakama era procurado pelo assassinato de Utani, um dos anciãos, entre outros crimes. No mesmo instante, ele dissera:

— Phillip, diga a lorde Yoshi que, tão logo retorne a Iocoama, iniciarei um inquérito formal, e se os fatos forem mesmo como ele diz, entregarei o homem imediatamente às autoridades. Phillip!

Mas Tyrer, mudo de incredulidade, olhava aturdido para Yoshi. André se recuperara depressa e traduzira para ele, tendo tido um sobressalto quando Yoshi lhe respondera em tom ríspido.

— Hum... lorde Yoshi diz: Duvida das minhas palavras?

— Diga que não, absolutamente não, lorde Yoshi. — Sir William mantivera a voz calma, pois percebera os olhos se estreitando. — Mas assim como vocês têm suas leis e costumes, e não podem, por exemplo, ordenar que esse daimio Sanjiro lhes obedeça, também tenho de respeitar nossas leis, que pelos termos do tratado são as leis dominantes em Iocoama.

— Ele diz, Sir William: Ah, sim, os tratados. Neste novo espírito de amizade, ele concorda em lhe conceder o dever de entregar... o assassino. Mandará homens para assumirem a custódia amanhã. Sobre o tratado, senhor, ele diz, disse exatamente, que algumas mudanças são necessárias, podemos discuti-las daqui a vinte dias.

Tyrer interveio, em voz baixa:

— Com licença, Sir William, sobre Nakama, posso sugerir...

— Não, Phillip, não pode. André, diga a ele, exatamente, o seguinte: Teremos o maior prazer em discutir as questões que afetem nossos interesses mútuos a qualquer momento.

Ele escolhera as palavras com o maior cuidado e deixara escapar um suspiro de alívio ao ouvir a resposta:

— Lorde Yoshi agradece, e diz: vamos nos encontrar em vinte dias, se não antes, e agora voltarei para Iedo com o Dr. Babcott.

Concluídos os gestos polidos e as reverências, depois que Yoshi deixara a sala Seratard dissera:

— William, acho que você se esquivou da armadilha com muita habilidade Ele é astuto demais. Meus parabéns.

— Sobre a marinha... — começara o almirante, veemente. Sir William não o deixara continuar:

— Primeiro, deixem-me testemunhar a partida de Babcott e Tyrer. Vamos Phillip!

Lá fora, ele sussurrara.

— Mas qual é o seu problema?

— Nenhum, senhor.

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