— Então por que faz uma coisa dessas? Por que esquece que seu trabalho é apenas interpretar, não fazer sugestões?

— Desculpe, senhor, mas sobre Nakama...

— Sei que é sobre ele, pelo amor de Deus! Você fez a maior cagada! Pensa que nosso astucioso hóspede não percebeu? Sua função é traduzir o que for dito, manter-se impassível, mais nada! Esta é a segunda vez que tenho de adverti-lo!

— Desculpe, senhor, mas Nakama é importante e...

— Está se referindo a Hiraga ou qualquer outro nome que ele use no momento? Ele é acusado de assassinato. Concordo que tem sido uma fonte de informações, mas um proscrito renegado? Temos sorte por ele não haver nos matado enquanto dormíamos, já que podia vaguear à vontade pela legação!

— O que pretende fazer, senhor?

— O que eu já disse: investigar e, se for verdade, como desconfio que é, somos obrigados pela honra a entregá-lo.

— Não poderia considerá-lo refugiado político?

— Ora, pelo amor de Deus! Você perdeu o juízo? Exigimos reparações e os assassinos pelo assassinato de nossos cidadãos, como podemos então nos recusar a lhes entregar um dos seus, acusado e provavelmente culpado de assassinar um dos seus governantes? Yoshi prometeu que ele teria um julgamento justo.

— Ele pode se considerar um homem morto, pois esse é todo o julgamento que terá.

— Se ele é culpado, isso é tudo o que merece.

Sir William contivera sua irritação, pois Tyrer fizera um bom trabalho hoje e constatara que a crescente amizade entre os dois o beneficiava.

— Phillip, sei que ele tem sido muito valioso, mas não podemos deixar de entregá-lo... depois que tivermos uma conversa. Adverti-o no início que teria de ir embora, se eles o pedissem. Agora, esqueça Nakama e concentre-se em descobrir tudo o que puder sobre o paciente de Babcott. Com um pouco de sorte, deve ser o tairo.

Ele seguira à frente para o pátio, onde Yoshi estava montando. Babcott esperava ao lado de um cavalo que Pallidar lhe emprestara e outro para Tyrer. A guarda de honra os cercava, alerta. Por ordem de Yoshi, os carregadores se afastaram das varas com os fardos. Depois, ele chamara Tyrer, que se adiantara, escutara, fizera uma reverência, e voltara.

— Ele disse que pode... hum... contar o dinheiro à vontade, Sir William, e lhe dar o recibo amanhã, por favor. Aquele homem... — Tyrer apontara para Abeh. — virá buscar Nakama amanhã.

— Agradeça a ele, e diga que tudo será feito como deseja.

Tyrer obedecera. Yoshi acenara para que Abeh partisse.

Ikimasho!

Partiram a trote, com o palafreneiro e os carregadores em sua esteira.

— Tudo bem, George?

— Tudo, obrigado, Sir William.

— Boa viagem. Phillip, saiu-se muito bem hoje. Mais algumas reuniões assim, e recomendarei sua promoção a intérprete de primeira classe.

— Obrigado, senhor. Posso estar presente quando conversar com Nakama?

Sir William quase explodira.

— Como pode estar presente, se vai para Iedo com George? Use seu cérebro! George, dê-lhe um remético, pois o pobre rapaz ficou obtuso!

— Não preciso realmente de Phillip — disse Babcott. — Apenas achei que poderia ser importante que ele conhecesse essa “pessoa anônima”.

— E tinha toda razão, esse encontro pode ser muito importante... Nakama ou Hiraga, qualquer que seja o seu nome, não é. Phillip, isso já entrou na sua cabeça?

— Já, sim, senhor. Desculpe.

Babcott inclinara-se, baixara a voz:

— Talvez seja uma boa idéia não entregar Nakama até voltarmos... para qualquer emergência.

Sir William fitara-o nos olhos, tal possibilidade projetando a consulta médica para um novo nível.

— Está querendo dizer que eles podem tentar retê-lo? Como um refém? Aos dois?

Babcott dera de ombros.

— Nakama é importante para ele e não há mal nenhum em ser precavido, não é?

Sir William franzira o rosto.

— Espero que voltem amanhã.

Ele ficara observando-os até que todos sumissem de vista e, depois, voltara à sala de audiência. No mesmo instante, o almirante explodira:

— Nunca ouvi tanta conversa fiada em toda a minha vida! Construir uma marinha para eles? Perdeu completamente o juízo?

— Não cabe a nós decidir sobre isso, meu caro almirante — dissera Sir William, sem perder a calma. — É uma atribuição do Parlamento.

— Ou, mais provável, do imperador Napoleão — dissera Seratard, incisivo.

— Duvido muito, meu caro senhor. — O almirante tinha o rosto e o pescoço roxos. — Os assuntos navais estrangeiros são da competência da marinha real; qualquer interferência francesa em áreas de influência britânica será tratada com o rigor necessário.

— É isso mesmo — dissera Sir William, alteando a voz para se sobrepor ao dois, pois o rosto de Seratard também ficara roxo e ele fazia menção de responder com veemência. — De qualquer forma, seria uma decisão política. De Londres e Paris.

— A política que se dane! — exclamara o almirante, as bochechas tremendo de raiva. — Uma dúzia de nossos melhores navios de guerra nas mãos desses selvagens, quando vemos o que eles são capazes de fazer com duas espadas? Eu me oponho totalmente!

— E eu também — declarara Sir William, a voz ainda calma —, e é o que vou recomendar.

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