Quando ficou sozinha de novo, na privacidade de seu boudoir, ela deixou a mente vaguear. Que trunfos? Que ases? E por que o sorriso estranho? E o que ele acertara de fato com Tess? É verdade, a julgar pela carta, que ele a convenceu da minha ajuda e isso é importante. Ou será apenas estou sendo desconfiada demais? Se ao menos eu estivesse presente na ocasião...

E, depois, o estou-ou-não-estou dominou-a, deixando agoniada. Num momento assim, assustada, ela mencionara a questão a Babcott, que respondera.

— Seja paciente e não se preocupe.

Por um instante, ela especulou se Babcott e Phillip Tyrer voltariam de Iedo, escapando das teias do inimigo, em que haviam se metido de bom grado, enviados por Sir William.

Os homens com sua estupidez de paciência, falsidade e prioridades erradas... o que eles sabem?

No castelo, em Iedo, Yoshi sentia-se ansioso e irritado. Era o meio da manhã, ele se encontrava em seus aposentos, e ainda não tinha qualquer notícia sobre o exame do tairo pelo doutor gai-jin. Ao chegar a Iedo, de volta de Kanagawa, no dia anterior instalara Babcott e Tyrer num dos palácios de daimio fora dos muros do castelo escolhido com o maior cuidado, guarnecido e cercado por guardas de confiança com segurança adicional, e logo em seguida convidara Anjo para o exame.

O tairo chegara num palanquim fechado e anônimo, protegido por sua própria guarda; afinal, a tentativa de assassiná-lo ocorrera a poucos mais de cem metros dali. Isso e mais o ataque em massa dos shishi ao xógum Nobusada e os vários atentados contra Yoshi haviam aumentado a preocupação e necessidades de segurança dos anciãos.

Yoshi, com Babcott e Phillip Tyrer ao seu lado, recebera o palanquim clandestino no pátio. Fizeram uma reverência, a de Yoshi a mais profunda, rindo por dentro, enquanto Anjo, com uma dor evidente, era ajudado a saltar.

Tairo, este é o doutor gai-jin, B’bc’tt, e o intérprete, Firrup Tiara. Anjo ficara boquiaberto ao olhar para Babcott.

— Ei, o homem é mesmo grande como uma árvore! Grande demais, parece um monstro! Seu pênis terá a mesma proporção? — Depois, ele fitara Phillip Tyrer e rira. — Cabelos de palha, cara de macaco, olhos azuis de porco e um nome japonês... é um dos seus nomes de família, Yoshi-dono, neh?

— O nome tem quase o mesmo som — respondera Yoshi, bruscamente e depois acrescentara para Tyrer: — Quando o exame acabar, mande esses dois homens ao meu encontro.

Ele apontara para Misamoto, o pescador, seu espião e falso samurai, e o constante guarda de Misamoto, o samurai que tinha a ordem para nunca deixá-lo a sós com qualquer gai-jin.

— Anjo-dono, creio que sua saúde está em boas mãos.

— Obrigado por arranjar este encontro. O doutor será enviado a você quando me aprouver, não há necessidade de deixar estes homens aqui, nem qualquer de seus homens...

Isso acontecera ontem. Yoshi se preocupara durante toda a noite e pelo início da manhã. Seus aposentos haviam mudado. Eram agora mais austeros. Todos os vestígios de Koiko foram removidos. Dois guardas postavam-se atrás dele e dois na porta. Irritado, Yoshi afastou-se da mesa de escrever, foi até a janela, inclinou-se para fora. Podia avistar o palácio do daimio lá embaixo, no círculo interior. Os homens do tairo montavam guarda ali. Nenhum outro sinal de atividade. Acima dos telhados de Iedo dava para ver o oceano e as trilhas de fumaça de navios mercantes e um navio de guerra, a caminho de Iedo.

O que eles transportam?, especulou Yoshi. Armas? Soldados e canhões? Que insídia os gai-jin planejam?

A fim de controlar os nervos, ele voltou a sentar à mesa, e continuou a praticar caligrafia. Em circunstâncias normais, o exercício o tranquilizava. Hoje, porém, não lhe proporcionou qualquer paz. Os traços refinados de Koiko continuavam a se formar no papel e ele não conseguia, por mais que tentasse, impedir que o rosto dela aflorasse em sua mente.

Baka! — exclamou ele, fazendo um traço errado, arruinando uma hora de trabalho.

Jogou o pincel longe, esparramando tinta no tatame. Os guardas se remexeram, apreensivos, e Yoshi censurou-se pelo lapso. Deve controlar sua memória. De qualquer maneira.

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