Koiko o assediava desde aquele dia sinistro. A delicadeza de seu pescoço, mal sentindo o golpe, depois se afastando apressado, sem acender sua pira fúnebre, as noites piores que os dias. Solitário ao deitar, com frio, mas sem o desejo do corpo de uma mulher, ou de socorro, todas as ilusões perdidas. Depois da traição de Koiko, permitindo o acesso a seus aposentos da mulher-dragão Sumomo... nenhuma desculpa era aceitável para isso, absolutamente nenhuma, ele disse a si mesmo de novo, absolutamente nenhuma. Ela devia saber sobre Sumomo. Não há desculpa, não há perdão, nem mesmo o seu sacrifício, como ele acreditava agora, de se adiantar para receber o shuriken que o teria abatido. Nunca mais poderia confiar em nenhuma mulher. Exceto sua esposa, talvez, e a consorte, talvez. Não mandara chamar nenhuma das duas, apenas escrevera, dizendo-lhes que esperassem e guardassem seus filhos, mantendo o castelo são e salvo.

Yoshi não sentia nenhuma alegria genuína, nem mesmo por sua vitória sobre os gai-jin, embora tivesse certeza de que fora um magnífico passo à frente e também que os anciãos ficariam extasiados, quando lhes contasse. Até mesmo Anjo. Será que aquele cão está mesmo muito doente? Espero que sim e que seja uma doença fatal. O gigante fará sua magia, conseguirá curá-lo? Ou devemos acreditar naquele doutor chinês, o que Inejin garantiu que nunca erra, e que sussurrou uma morte em breve?

Não importa. Anjo, doente ou não, vai me escutar mais agora, os outros tombem escutarão, e concordarão com minhas propostas. Por que não? Os gai-jin foram contidos, agora não há mais ameaça da esquadra e podemos considerar que Sanjiro será destruído pelos gai-jin; Ogama continuará em Quioto, satisfeito. O xógum Nobusada receberá a ordem de retornar a Iedo, que é o lugar a que ele pertence, depois que explicasse o papel que o menino deveria desempenhar no grande plano. E não apenas voltará, mas também voltará sozinho, deixando a esposa hostil, a princesa Yazu, para “segui-lo em poucos dias”, o que jamais aconteceria, se Yoshi pudesse prevalecer. Não havia necessidade de revelar o que pretendia fazer aos outros. Só a Ogama.

E o próprio Ogama não saberia de tudo, apenas a parte para manipular a princesa e levá-la ao divórcio, por “solicitação” imperial. Ogama cuidaria para que ela não interferisse, até que fosse neutralizada em caráter permanente, contente em viver para sempre nas areias movediças palacianas, de competições de poesia, misticismo e outros cerimoniais temporais. E teria um novo marido. Ogama.

Não, não Ogama, pensou, cínico e divertido, embora eu vá propor a união. Não, um outro, alguém com quem ela se contente... o príncipe a quem foi outrora prometida e a quem ainda adora. Ogama será um excelente aliado. Sob muitos aspectos. Até seguir para o outro mundo.

Enquanto isso, não há necessidade de partilhar uma verdade imortal que descobri sobre os gai-jin... nem com Ogama, nem com Anjo, nem com qualquer outro: Os gai-jin não compreendem o tempo como nós, não consideram ou pensam sobre o tempo como nós. Pensam que o tempo é finito. O que não acontece conosco. Preocupam-se com o tempo, minutos, horas, dias... os meses são importantes para eles, os prazos exatos são sagrados. Sua versão do tempo os controla. Portanto, esse é o instrumento que podemos usar para derrotá-los.

Ele sorriu para si mesmo, adorando segredos, sonhando com mil maneiras de usar o tempo dos gai-jin contra o tempo real para dominá-los, e também o futuro, por intermédio deles. Paciência, paciência, paciência.

Enquanto isso, ainda tenho os nossos portões, embora os homens de Ogama controlem meus homens que guardam os portões. Isso não importa. Muito em breve os possuiremos por completo e prevaleceremos sobre o filho do céu. Viverei para testemunhar isso? Se viver, testemunharei; se não viver, não testemunharei. Karma.

A risada de Koiko provocou um calafrio por sua espinha. Ah, Tora-chan, você e o karma! Surpreso, Yoshi olhou ao redor. Não era ela. A risada vinha do corredor, misturada com vozes.

— Sire?

— Entre — disse ele, reconhecendo Abeh.

Abeh entrou, deixando os outros lá fora. Os guardas relaxaram. Abeh era acompanhado por uma das criadas, uma mulher jovial, de meia-idade, carregando uma bandeja, com chá fresco. Ambos se ajoelharam, fizeram uma reverência.

— Ponha a bandeja na mesa — ordenou Yoshi.

A criada obedeceu, sorrindo. Abeh continuou ajoelhado, perto da porta. Eram as novas ordens: ninguém podia se aproximar a menos de dois metros sem permissão.

— Do que estava rindo?

Para surpresa de Yoshi, ela disse, efusiva:

— Do gigante gai-jin, Sire. Eu o vi no pátio, pensei que era um kami — dois na verdade, Sire, o outro de cabelos amarelos e olhos azuis de um gato siamês. E tive de rir, Sire. Imagine só, olhos azuis! O chá é desta estação, como ordenou. Gostaria de alguma coisa para comer, por favor?

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