— Jamais gostei de bolo, Sr. Gornt, nem de glacê... qualquer possibilidade de gostar dessas coisas me foi arrancada por meu pai, que desaprovava essas coisas, quando eu era pequena. O preço?

— Posso lhe garantir, madame, que será um preço que terá o maior prazer em pagar, por minha honra e minha palavra como cavalheiro.

Ela o fitara nos olhos.

— Posso também lhe assegurar, Sr. Gornt, que se me trair cuidarei para que se torne um homem extremamente infeliz, além de persona non grata na Ásia e por todo o Império... por minha honra e minha palavra como tai-pan da Casa Nobre...

Gornt sentiu um calafrio, recordando a maneira como as palavras de Tess o envolveram, o orgulho com que ela dissera tai-pan da Casa Nobre, mesmo quando acrescentara “embora em caráter temporário”. Compreendera, de repente, que aquela mulher era de fato tai-pan agora, compreendera que quem tinha o título não exerceria o poder. Compreendera, com uma pontada de medo, que teria de lidar com ela por muito tempo, que ao destruir a Brock talvez criasse um monstro que acabaria por destruí-lo também.

Deus do céu, ela pode me retalhar em pedacinhos, a seu capricho! Como posso convertê-la numa aliada e mantê-la como aliada? Ela tem de ser minha aliada. Qualquer que seja o custo.

E depois as risadas de Dmitri e Marlowe o trouxeram de volta. Seu mundo tornou a entrar em foco. Luz de velas, a mesa de jantar, a melhor prataria, bons amigos. Seguro em Iocoama, o sinete já retirado do cofre e escondido, uma carta já escrita, com data anterior e a marca do sinete, corroborando a prova insuficiente contra o membro fundamental do conselho, outra carta insinuando um conluio do presidente. Sem eles, o conselho vai desabar em nosso colo como um castelo de cartas soprado, não terão outro jeito, não conseguirão resistir à sua única chance de vingança contra Tyler e Morgan Brock. E não há necessidade de temer Tess Struan. Ela está em meu poder, assim como meu futuro se encontra em suas mãos.

Tenho muitos motivos para me sentir satisfeito. Aqui estou, aos vinte e sete anos, a cabeça de Morgan quase na bandeja, sou o futuro tai-pan da Rothwell-Gornt, no comando de uma mesa esplêndida, criados à espera de minhas ordens E ela também está aqui, linda, potencialmente rica e me amando, por mais que tente ocultar, minha futura noiva, qualquer que seja o resultado... uma criança de Malcolm só torna o preço mais alto para Tess, um preço espetacular, mas também uma barganha, que ela pagará com a maior satisfação!

“Saúde e uma vida longa”, brindou ele, silenciosamente, erguendo o copo, para Angelique e para si mesmo, e para os dois juntos, convencido de que seu futuro era ilimitado.

Os convidados não notaram o brinde particular, absorvidos demais na conversa, disputando a atenção de Angelique. Tranquilo, ele os observou. Mais do que tudo, observou-a. Até que bateu na mesa.

— Angelique, cavalheiros, a atenção de todos, por favor. Temos uma sopa hindu de caril com xerez, peixe assado com cebolas e azeitonas, acompanhado por um Pouilly Fuissé gelado, sorvete e champanhe, depois o rosbife com batatas e St-Emilion... o cozinheiro “encontrou” uma excelente peça de carne Struan... não se preocupe, madame — disse ele, rindo —, foi comprada, não roubada. Depois, um pastelão de galinha e, no final, uma surpresa para acabar com todas as surpresas.

— Qual é? — indagou Marlowe.

— Espere para ver.

Gornt olhou para Angelique. Ela sorriu, seu sorriso enigmático, o sorriso que tanto o excitava, como a Mona Lisa que admirara no Louvre, numa viagem a Paris... e que nunca mais seria esquecida.

— Acho que devemos confiar em nosso anfitrião, capitão — disse ela, suavemente. — Não concorda?

55

Domingo, 11 de janeiro:

Angelique despertou de madrugada com um suor frio, de volta no tempo, de volta à legação francesa, os vidros da mama-san na mesinha de cabeceira, um já vazio, o outro pronto para desarrolhar e tomar, assim que as cólicas começassem.

Descobrindo-se coberta na cama, em sua própria suíte, os carvões em brasa ainda luzindo, a luz noturna projetando sombras firmes, o terror se dissipou, a pulsação voltou ao normal e ela esperou pelas indicações. Nada. Nem cólicas, nem dor na barriga. Um tempo de espera. Ainda nada. Graças a Deus, pensou ela, devo ter sonhado que haviam começado. Relaxou, observando as brasas, ainda não de todo desperta, boas imagens nas brasas, retratos felizes dos telhados de Paris ao pôr-do-sol, fundindo-se com a paisagem de verão da casa dos seus sonhos na Provence, o bebê dormindo contente em seu colo.

Jésus, Marie, por favor, não deixe que comecem. Por favor.

Babcott a visitara na tarde anterior.

— Passei por aqui e resolvi entrar para saber como você está.

— Não precisa inventar mentiras — protestara ela, em tom ríspido. — O Dr. Hoag disse a mesma coisa esta manhã. As mesmas palavras.

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