Desde o seu passeio, quando tornara a conversar com Gornt — sem tomar conhecimento de mais nenhuma novidade —, haviam decidido, por consenso mútuo, que não se encontrariam por alguns dias. Por duas vezes ela convidara Maureen Ross para o chá, a segunda recebendo-a deliberadamente na cama, para encorajar os rumores de que tinha uma febre. As conversas foram corriqueiras, sobre moda, os problemas na colônia, a vida aqui, nada sério. Mais tarde, tais visitas seriam divertidas, quando pudessem conversar mais sobre assuntos e pensamentos íntimos. Não agora. Mas ela gostava de Maureen, que trouxera livros e revistas, falara sobre o novo escritório de Jamie, como ele vinha trabalhando por longas horas, e manifestara, com certa inibição, sua esperança de que casassem em breve.

A única pessoa que ela gostara realmente de receber era Phillip Tyrer. Ele fora enviado por Sir William com os melhores votos de rápida recuperação, levara os últimos jornais de Londres, presenteara-a com flores, que comprara na aldeia.

— Por ordem do governo de sua majestade — dissera ele, em francês, com um floreio, seu sorriso infantil e joie de vivre contagiantes.

Phillip conversara por uma hora ou mais, a maior parte do tempo em francês, relatando os últimos rumores. Sobre sua viagem a Iedo, sobre Nakama-Hiraga, Que desaparecera sem deixar o menor vestígio, criando um problema diplomático para Sir William, e sobre o capitão Abeh, que “ainda está esperando, fervendo de raiva, no portão norte”.

— O que vai acontecer, Phillip?

— Não sei. Esperamos que o problema desapareça em breve. Uma pena que tivéssemos de descrever Nakama, qual é a sua aparência agora, e com isso ele não terá muita chance de escapar. O que é lamentável, porque ele era um bom sujeito, me ajudou muito. Não acredito numa só palavra dessa alegação de que ele é assassino. Não arrancamos muitas informações do outro sujeito, o amigo de Nakama, de uma família de construtores de barcos de Choshu. Até levei-o a dar uma olhada em uma de nossas fragatas. Um sujeito muito simpático, mas bastante estúpido não sabia sobre Nakama ou não quis dizer nada. Sir William não queria entregá-lo ao Bakufu, por isso deixou-o ir embora. Uma coisa terrível, Angelique, pois Nakama me ajudou tremendamente... e não apenas com o japonês... se não fosse por ele...

Mais tarde, tomaram uma sopa juntos, e Phillip acabara admitindo, por insistência dela, depois de fazê-la jurar que guardaria segredo, que tinha uma garota, uma garota especial, na Yoshiwara.

— Ela é linda e simpática, Angelique, acho que posso arrumar o dinheiro para o contrato sem sacrificar o Tesouro, a ligação é maravilhosa...

Angelique se divertira por ele parecer tão jovem, invejara-o por seu amor simples e se sentira, comparada com Phillip, muito adulta e sofisticada.

— Eu gostaria de conhecê-la um dia — sugerira ela. — Posso facilmente me esgueirar até sua Yoshiwara, vestida como homem.

— Oh, Deus, não, Angelique! Não poderia fazer isso! Não deve!

Poderia ser bastante divertido fazer isso, pensou ela, rindo, e virou-se na cama, quase adormecida. André me levará. Gostaria de conhecer essa Hinodeh em quem tanto investi. Como será que ela parece?

No limiar do sono, ela teve um espasmo.

Outra cólica, diferente. E mais outra. Totalmente desperta agora. Apreensiva, ela esfregou a barriga e o ventre, a fim de atenuar a dor. Mas não desapareceu e ela compreendeu, com toda certeza, que era a dor antiga e familiar, com a sensação de estar um pouco inchada.

Começara. E seguiu-se o fluxo de sangue. Com o fluxo, todo o seu anseio, preocupação e esperança irromperam. Num desespero total, Angelique começou a chorar, comprimiu a cabeça contra os travesseiros.

— Oh, Malcolm, eu esperava tanto, mas tanto, agora nada me resta para dar, nada restou de você, oh, Malcolm, Malcolm, sinto muito, lamento tanto. Oh, Deus, perdoe... seja feita a sua vontade...

Chorando e chorando, depois de uma eternidade, chorando até dormir, ela tinha mais lágrimas para derramar.

Miss, acorde! Miss tai-tai, café, hem!

Enquanto ela ainda continuava nas brumas do sono, Ah Soh bateu com a bandeja na mesa ao lado da cama e Angelique sentiu o aroma quente e divino de café fresco — presente de Seratard e um dos poucos serviços que Ah Soh podia ou queria fazer direito — envolvendo-a, trazendo-a para o dia sem sofrimento.

Ela sentou na cama, espreguiçou-se, atônita e feliz por se sentir tão alerta, tão bem. As cólicas haviam desaparecido, a dor se desvanecera para o padrão normal, melhor do que o habitual, a sensação de inchaço menor do que o habitual.

E o melhor de tudo, o desespero a deixara. É o milagre DELA, pensou Angelique, reverente. Durante o último mês, em suas orações noturnas à Virgem Maria falando, pedindo, suplicando, uma noite, extenuada pela ansiedade, ela ouvira: “Deixe tudo comigo, minha criança, a decisão é MINHA, não sua.” Ouvira sem ouvir com os ouvidos, mas com seu eu interior. “MINHA decisão, tudo, descanse em paz.” A ansiedade se dissipara.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги