Beijaram a cruz, abraçando-se uns aos outros. Fernão e Cristóvão entreolharam-se pasmados e só não riram porque se sentiam comovidos com a fé daquela comunidade de cristãos no fim do mundo.

– Estas criaturas de Deus não conhecem qualquer oração nem os ritos da nossa Igreja! – murmurou Fernão.

– Podíamos ensinar-lhes algumas preces – alvitrou Borralho, no mesmo tom. – Assim agradecíamos à moça e também a Deus a mercê de a ter posto no nosso caminho.

Despedidos os últimos visitantes, Inês voltou para junto dos seus hóspedes, com um sorriso de felicidade que parecia iluminar-lhe o rosto de feições suaves, tornando-a muito bela. Os portugueses sentiram no ventre e na alma um desejo pela mulher a feri-los como lume.

– Conheceis outras preces, além da que ouvimos há pouco? – perguntou-lhe Fernão, respirando fundo para libertar o nó da garganta.

– Meu pai deixou-me muitas orações escritas, mas foram furtadas pelo meu povo, por isso não sabemos dizer outra, além da que ouvistes – lamentou-se, olhando-os como a pedir perdão.

– Que é muito boa – apressou-se Borralho a consolá-la, numa voz doce como o amigo nunca lhe tinha ouvido –, porém, se vossa mercê quiser, antes de nos irmos de cá, podemos deixar-vos outras para diferentes funções.

– Fazei-o, por esse Deus a Quem tanto devemos – rogou-lhes, de mãos postas e olhos brilhantes.

Durante a sua curta estadia na casa do embaixador, Fernão e Cristóvão, acolitados pelos companheiros, fizeram sete vezes doutrina aos cristãos chins, enchendo-os de um novo ânimo para a sua fé. Inês escreveu num caderno, em letra da China, o Pater Noster, a Ave Maria, o Credo, a Salve Regina, os Dez Mandamentos e muitas outras orações que os dois amigos lhe ditaram.

Toda a comunidade cristã viera assistir à partida dos portugueses, dando-lhes cinquenta taéis de esmola, à despedida, e Inês entregara outros cinquenta a Fernão, às escondidas, rogando-lhe que a encomendasse a Nosso Senhor.

Na véspera, a filha do embaixador visitara a mulher do chifuu (que parecia de melhor saúde e a recebera com muita cortesia) para lhe oferecer um rico presente, em troca da sua protecção para os folangji, assegurando-lhe que eram homens de bem, merecedores de piedade. A mulher, encantada com a oferta, prometera-lhe fazer com que o marido usasse de caridade para com eles e lhes desse bom trato durante o resto da viagem.

A lembrança dos taéis de prata traz de novo Fernão à dura realidade do cárcere de Gofanjauserca, onde jazem. Apalpa o cinto de pano preso ao corpo por baixo da cabaia, mirando em redor, na pálida claridade das candeias, a ver se nenhum estranho se acercou de Borralho e de Zeimoto que guardam as outras duas partes da sua fortuna, que poderá representar a diferença entre a vida e a morte, se os tronqueiros e os escrivães de Pequim forem tão fáceis de peitar como os de Taypor ou Nanquim. Sossegado, adormece apesar dos lanhos em carne viva lhe morderem o corpo como perros raivosos, a cada movimento.

101 Tratado de Geografia Económica da China, do filósofo Kou Yen-wou (1613-1681).

102 Tael ou onça de prata usada como dinheiro na China. Designava também a onça, medida de peso chinesa.

IV

Ser pedra é fácil, o difícil é ser vidraça

(chinês)

Da petição dos folangji, escrita pelos tanigores, ao chaem da Justiça para revogação da sentença:

Por nenhum caso podem ser condenados em pena de sangue, visto não haver testemunhas dignas de fé que os vissem claramente roubar o alheio, nem serem achados com armas nenhumas, como é defeso pela lei do Primeiro Livro, senão nus e descalços como pobres perdidos que verdadeiramente são, pelo qual parece que a sua pobreza e desamparo são mais dignos de um piedoso respeito que daquele rigor com que os primeiros Ministros do Braço da Ira tinham executado neles a pena dos açoutes e que da sua culpa ou inocência só os deuses eram claros juízes, da parte dos quais lhe requeriam uma e duas e muitas vezes que olhasse aquelas cousas que lhe eram ditas e requeridas com seu claro juízo, sem respeitos nenhuns mundanos, perturbadores do fiel da balança.

(Peregrinação, capítulo CI)

Despertam manhã cedo com o rebuliço causado na enfermaria pela entrada do conchaly que vem interrogá-los, um privilégio de que usufruem por serem estrangeiros e a recobrar dos ferimentos, mal podendo manter-se de pé. Como um só homem, os presos chins baqueiam de joelhos, com as mãos erguidas e o rosto de rojo no chão; os portugueses imitam-nos, conforme podem, cerrando os lábios para abafarem os gemidos.

O mandarim da Justiça vem acolitado por dois escrivães e sete upos, cuja vista faz os presos gatinharem às arrecuas, como carochas assustadas, para o mais longe que lhes permite a sala apinhada. Acostumados ao terror que provocam, os oficiais passam, altivos, sem olhar a turba rastejante e param diante dos fan jen, que tremem como se tivessem sezões. O lauteaa senta-se numa banqueta coberta com um pano de seda vermelha que os guardas se apressaram a armar no espaço deixado livre pelos condenados.

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