– Ouvi dizer que toparam apenas com um ermitão de mais de cem anos de idade, que mal se podia ter nas pernas e ficou tão fora de si que caiu de focinhos ao chão, a tremer de pés e mãos – zomba Gaspar.

– Assi foi, porém, mal recobrou o uso da palavra, teve ânimo para nos amaldiçoar e lançar pragas, quando nos viu a quebrar as campas e revolver os ossos dos defuntos para lhes roubar as jóias! – lembra Valentim, com uma risada. – Apodou-nos de ministros da noite, cães esfaimados aos quais nem toda a prata do mundo poderia fartar. O capitão jurou-lhe que o fazíamos por necessidade daquela esmola, pois tínhamos naufragado e perdido toda a nossa fazenda, que não podia impedir aquela má obra dos seus homens porque eles o matariam, mas prometia pagar-lhe tudo mais tarde. A promessa sossegou-o um tanto, até Faria lhe perguntar quantos homens guardavam os túmulos dos reis da China e o velho perceber que era nossa tenção pilhá-los.

Jorge interrompe, num tom escarninho, a disfarçar alguma amargura:

– O capitão cometeu o erro fatal de o deixar livre na ermida, por ele mal poder andar. Foi tropeçar em cuidados: assi que saímos dali para tornar ao barco a preparar o assalto às outras ermidas e aos túmulos dos reis, o velho foi a rastejar de pés e mãos até à capela mais próxima, cujo ermitão deu o alarme. Em menos de uma hora, começou o martelar dos sinos e, por cima da cerca do Pagode dos Reis, surgiu uma carreira de fogos de aviso. António do Faria ainda desembarcou de madrugada com alguns homens, mas o perigo era muito, forçando-o a bater em retirada, depenando as barbas e dando-se muitas bofetadas de raiva por ter perdido, por seu descuido, tamanha riqueza como aquela.

– Escapámos por milagre do rio e dos perigos de terra – desabafa Valentim – para nos perdermos no mar, a nós e a toda a prata que furtámos com tamanho trabalho!

– Falai baixo, homens de Deus. – geme Francisco Diogo Zeimoto, muito fraco da perda de sangue. Estivera tanto tempo desacordado que já o tinham dado por morto. – Olhai, se nos denunciam.

– Quem? Quantos portugueses crês tu que esta gente viu? – retorque Borralho. – Só aqui estiveram os da embaixada de Tomé Pires, há mais de vinte anos, e mataram-nos a todos. Ou já te olvidaste do que nos contou Inês de Leiria?

Inês de Leiria! Fernão deixa de ouvir os companheiros, esquecendo as dores e o cárcere, quando o seu pensamento o transporta de novo à pequena cidade de Sampitay onde, na viagem pelo rio Batampina, ficaram cinco dias por causa da mulher do chifuu.

93 Corsários.

94 Eunucos que disputavam o poder aos mandarins, os burocratas e letrados da administração chinesa.

95 Fulano.

96 Peregrinação, capítulo LII.

97 Peregrinação, capítulo LX.

98 Ilha de Putuo Shan, no mar da China.

99 Zin Zilao, famoso pirata chinês que foi o primeiro investidor em Liampó/Ningbo, entre 1538 e 1542.

100 Liampoo – Ningbo (China).

III

Não se vanglorie o grande, nem se queixe o pequeno: ondas são que com o tempo crescem e manguam

(português)

Sobre a primeira embaixada dos folangji:

No início de Kia-tsing (1522), o reino dos Folangji enviou um embaixador para oferecer o tributo.

Essas gentes gostavam de comer criancinhas. Dizia-se que, no seu país, só o rei as podia comer; os ministros e os que estão abaixo deles não o podiam fazer. Nesse tempo, os folangji compraram secretamente crianças com mais de dez anos e comeram-nas; compravam cada criança por cem moedas de ouro aos moços vadios do Kouang que as raptavam.

O seu modo de proceder consistia em ferver água numa grande panela e quando ela começava a fervilhar, metiam a criança numa gaiola de ferro, suspendiam-na por cima da panela e escaldavam-na ao vapor, para lhe extrair o suor. Logo que ela perdia todo o suor, tiravam-na da gaiola e com uma escova de ferro raspavam-lhe a pele escaldada. A criança continuava viva. Então matavam-na, abriam-lhe o ventre, retiravam-lhe os intestinos e o estômago, coziam-na ao vapor e comiam-na. Durante dois ou três anos, as crianças raptadas tornaram-se cada vez mais numerosas. Sofria-se com isso tanto perto como longe. O aytao Wang Hong quis expulsar os folangji com tropas.

(T’ien-hia kiun-kouo li-ping chou101)

Vinham há onze dias presos de pés e mãos aos remos, com os corpos chagados das correadas que tinham recebido, por se terem rido das estátuas dos deuses dos Infernos. O chifuu fora forçado a parar em Sampitay por causa da mulher que precisava de cuidados médicos e dera licença a Fernão, Borralho e Zeimoto – os que melhor falavam a língua chim – para irem pedir esmola pelas ruas da cidade.

Saíram do junco, despedidos pelo coro de murmurações invejosas dos restantes companheiros, apesar de irem carregados com grilhões nas mãos e nos pés, escoltados por quatro upos com alabardas, semelhantes aos beleguins portugueses, a quem teriam de dar por paga metade do que recolhessem.

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