Cobiçosos dos lucros, os guardas levavam-nos pelas principais ruas da cidade, onde atraíam grandes ajuntamentos de curiosos. Os chins, apesar de desprezarem os pedintes, tachando-os de ladrões e preguiçosos, espantavam-se com o aspecto dos folangji acorrentados, mas, vendo que falavam a língua da terra, davam-lhes roupa, dinheiro e mantimentos com grande largueza, fazendo-lhes muitas perguntas, como nessa manhã em que se dessedentavam na fonte da grande praça de Sampitay:

– Sois de que reino?

– Que terra é a vossa? Como se chama o vosso povo?

Respondiam-lhes, mantendo a sua história, enfeitando o relato com tantas cores quantas lhes permitia o seu domínio da língua, para comprazerem a assistência e conseguirem esmolas mais generosas.

– Somos mercadores da Índia e sofremos um naufrágio nas costas de Nanquim.

– Já fomos ricos, mas perdemos tudo.

– Fomos falsamente acusados de ladrões pelo chumbim de Taypor.

Quando a multidão dispersou, uma mulher ainda moça deu-lhes dois mazes, a moeda de Malaca de cinquenta réis, dizendo:

– Não devíeis fazer viagens compridas, onde Deus permite fazer as vidas tão curtas. O melhor é trabalhar a terra, já que Deus foi servido de nos fazer de terra.

Agradeceram-lhe ao modo de Portugal, desbarretando-se e ela sorriu enlevada. Fernão achou-a bonita, quase parecida com as mulheres portuguesas, no modo como falava ou naquilo que dizia e o seu coração apertou-se de tristeza. Reparou que estava vestida como uma dona de qualidade, embora não tivesse os pés enfaixados. Chegando-se mais, a moça arregaçou a manga do jubão de cetim roxo e mostrou no braço nu uma cruz gravada a ferro quente.

– Algum de vós conhece este sinal, a que os cristãos chamam cruz? Já ouvistes falar nela?

– Sim, em nome de Jesus Cristo! – bradaram os portugueses, em uníssono.

Com lágrimas nos olhos, puseram os joelhos em terra, com a mesma devoção que teriam numa igreja, por aquela cruz lhes parecer um sinal ou um milagre de Deus. Mais certos ficaram ainda da intervenção divina, quando ela deu um grito de júbilo e, erguendo as mãos ao alto, disse na portuguesa língua:

– Padre nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome.

– Sois portuguesa? – perguntou Fernão, tal como os companheiros, duvidoso do que ouvira, tanto mais que ela tornou logo a falar chim.

– De português só sei estas palavras. Dizei-me, por vossas vidas, se sois cristãos.

– Somos cristãos portugueses, juramos por esta vossa cruz que falamos verdade – assegurou-lhe Borralho.

Os três, tomando-lhe o braço com muita reverência, beijaram a tatuagem e recitaram em coro o Padre Nosso, para ela ver que não mentiam. O entremez atraíra gente curiosa que ela afastou com bons modos mas firmemente.

– Vinde, cristãos do cabo do mundo, com esta vossa irmã na fé de Cristo – rogou-lhes, quando ficaram de novo sós, acrescentando, com um sorriso: – Quiçá serei parenta de algum de vós por parte do pai que me gerou neste desterro. Chamo-me Inês de Leiria, sou filha de um português chamado Tomé Pires. Ouvistes falar dele?

– O boticário Tomé Pires é vosso pai?

– Cuidei que o embaixador tinha sido morto pelos chins, com todos os da sua comitiva.

– Vosso pai inda é vivo?

Não saíam do pasmo. Quem poderia imaginar uma tal história? Quando a ouvissem, os seus companheiros iriam achar que eles estavam a contar inzonas para os enganar.

– Não – disse Inês, com tristeza. – Vinde a minha casa, para eu vos dar de comer e vos contar a sua desgraçada vida.

Os upos recusaram, ameaçadores:

– Ide pedir esmola pela cidade, como vos foi mandado pelo chifuu, senão volveremos já ao barco.

– Não perdereis nada das esmolas, porque eu vos darei remédio – sossegou-os a filha de Tomé Pires, conhecendo as razões da sua recusa.

Meteu-lhes nas mãos dois taéis102 de prata para os amansar e os guardas, sem mais protestos, escoltaram-nos até à casa da sua anfitriã que os sentou à mesa e lhes serviu comida em quantidade e qualidade como há muito não comiam.

– O meu pai contou-me muitas vezes como veio por embaixador d’el-rei de Portugal ao Filho do Céu, sendo de início muito bem recebido – começou Inês, quando os viu saciados e capazes de atenderem a algo mais do que ao prato de comida. – Contudo, por obra dos abusos que um capitão português fizera entretanto em Cantão, os mandarins disseram que ele não era embaixador mas sim um espia. Prenderam-no com os doze homens da sua companhia. – quebrou-se-lhe a voz e as lágrimas correram-lhe pelo rosto. Fez um esforço para as conter e prosseguiu: – Deram-lhes muitos tratos para os fazerem confessar, de que logo morreram cinco; os restantes foram executados ou pereceram nos troncos, comidos de piolhos e maleitas, salvo o embaixador e um tal Vasco Calvo, ambos condenados ao desterro, apartados um do outro. O meu pai morreu há três anos, Calvo ainda vive e é conhecido por Alcochete, de onde é natural, tal como eu recebi o nome de Leiria, a terra dos meus avós.

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